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Com desfecho previsível e clichê, "À primeira luz da manhã" não consegue sustentar o ritmo da história

Quem olhar para a minha estante vai perceber um grande número de romances ambientados no período da Segunda Guerra Mundial. Não só romances ambientados, mas também livros de não ficção sobre este período obscuro da nossa História. “À primeira luz da manhã”, de Virginia Baily, é um desses romances do qual falei. Ambientado na Itália ocupada pelos Nazistas, a história é um pouco confusa. A premissa é interessante, mas o desenrolar da trama não funciona. Cogitei várias vezes em abandonar a leitura e escrever uma resenha sobre as primeiras cem páginas que tinha suportado ler. Não que a escrita seja maçante, mas a forma como decidiu estruturar o romance é que torna a leitura enfadonha. Explico. Baily escreve sobre Chiara Ravello e Daniel Levi, um garotinho judeu que foi entregue a Chiara pela sua mãe, com muitas súplicas, para que o menininho não tivesse o destino do restante da família: ser enviado a algum campo de trabalho forçada na Alemanha. A protagonista aceita a sua missão, mesmo he…

As pupilas do senhor Reitor, de Júlio Dinis

As Pupilas do Senhor Reitor [Record, 368 pgs, R$32,90] é um clássico da literatura portuguesa. Como o título sugere, as personagens principais são as pupilas do S. Reitor. Margarida e Clara são irmãs, mas uma é o oposto da outra. Enquanto a mais velha, Guida, é reservada e dada às tristezas e melancolia da vida, a outra é alegre, brincalhona e de uma ingenuidade própria das raparigas (leia-se moças) de virtudes do século XIX. A trama gira em torno do já citado S. Reitor, as suas pupilas, o José das Dornas e seus filhos, Pedro e Daniel. Este último, que deveria ter sido padre, não fosse por sua paixão pela pequena Guida – os dois eram crianças – é o caos que agita toda a história. Mandado para a cidade do Porto, Daniel volta já médico para a aldeia onde nascera e passara a infância e causa agitação na pacata aldeia. Suas ideias modernas chocam o médico octogenário, João Semana, e a princípio há certa disputa entre o velho e conservador; o novo e o progressista. Pedro, irmão mais velho …

Os meninos que enganavam nazistas, de Joseph Joffo

Sabemos que o período nazista foi um dos piores episódios da nossa História. Nessa autobiografia envolvente, Joseph Joffo narra como ele e seu irmão fugiram dos nazistas e como conseguiram enganar aqueles homens que detestavam os judeus. Vivendo na França ocupada pelos alemães nazistas, os dois irmãos se veem sendo introduzidos a um mundo adulto repleto de maldade. Seus pais, que também fugiram da Rússia pelo fato de serem judeus, envia os dois filhos para uma cidade onde o domínio nazista não é muito forte. Imagino o quanto foi difícil para esses pais ver suas duas crianças partirem sozinhas rumo a um futuro desconhecido e perigoso, tendo que viver fugindo de pessoas más pelo simples fato de serem judeus. “O que é judeu”, pergunta Joseph ao pai inocentemente. No mundo infantil, onde a inocência ainda permanece imaculada, ter que entender algo dessa dimensão não é fácil. Antes viviam tranquilos e vagabundeando pelas ruas de Paris, agora estavam lutando para não serem capturados pelos …

Dez contos para você ler Eça de Queirós e não pegar abuso

Eça de Queiros é um daqueles autores em que os estudantes não aguentavam ler uma página sequer. Não porque fosse ruim, mas sim por causa da obrigatoriedade. Temos muitos problemas com os autores de língua portuguesa exatamente por culpa do nosso ensino que está, há muito, ultrapassado em nosso país. Mas lendo os Dez contos de Eça de Queiros [José Olympio, 256 pgs R$39,90] fiquei encantado com aquelas narrativas fluidas, interessantíssimas e até mesmo sublime. Em alguns contos, como o Civilização, podemos perceber o quanto é atemporal. este conto em especial fala sobre os perigos que a civilização tem para os homens, pois esta em vez de fazê-lo feliz, faze-o triste e sem ter prazer na vida mesmo tendo acesso às mais variadas novas tecnologias. Jacinto, amigo do narrador deste conto, era um homem que tinha tudo e nada lhe faltava: saúde, amigos, riquezas. Estava envolto das mais recentes inovações, tinha para si uma imensa biblioteca, comidas finas, tapetes macios, produtos dos mais var…

A alma do mundo, de Roger Scruton

Para Roger Scruton, um dos filósofos mais importante da atualidade, não podemos explicar o mundo apenas pelas ciências naturais. Em seu mais recente livro publicado pela Editora Record, Scruton argumenta contra essa tendência de querer explicar cientificamente o que não se pode ser explicado cientificamente. O indivíduo, o self, não pode ser analisado pela ciência com o propósito de explica-lo, assim como o mundo, a música, a religião, o sagrado e as relações eu-você. Nos primeiros capítulos a compreensão pode ser um pouco difícil, pois o filósofo contrapõe os argumentos científicos (como a psicologia evolutiva) que afirma que o que fazemos é determinado pelos nossos genes. Mas não tentarei explicar o que é bastante complicado para entender, por isso deixo essa tarefa para o próprio Scruton.
As nossas associações, o nosso ato de sacrificar pela família ou pátria, nossos contratos, relacionamentos e até a nossa crença faz parte de um mundo que não se pode explicar pela ciência. O nosso …

Na escuridão da mente, de Paul Tremblay

“Me assustei para valer, e eu não sou nada fácil de assustar”, diz Stephen King sobre este livro. Confesso que fiquei com medo, e até posterguei a leitura. Mas acabei encarando o desafio e dei início à leitura. Bem, é assustadora! Até certo ponto, pois depois tudo começa a ficar meio perdido. Sim, a história é sobre a (não?) possessão de Marjorie, filha mais velha de pais à beira de uma ruptura familiar e irmã de Merry, a irmã mais nova e pela qual sabemos como tudo aconteceu. Como o pai de Merry estava desempregado e com toda a situação assombrosa em casa, o padre Wanderly convence-o a transformar o drama familiar em um programa de televisão, A Possessão. Com este programa a família voltaria a ser próspera, mas o quanto vale a pena expor a família para todo o público?
Quem nos leva ao passado é a Merry já adulta, que concede entrevistas a uma autora que irá escrever sobre tudo o que aconteceu com a sua irmã, e como se deu as filmagens do programa mais assustador da época. Desenterrand…

Como me tornei um leitor

A leitura é um prazer quase de outro mundo. Quando descobri o mundo dos livros, já muito tarde, eu estava prestes a ingressar no ensino médio. Lembro-me de antes disso ler alguns livros, mas ainda não era fascinado pela leitura. Ao tentar buscar onde esse desejo apareceu pela primeira vez, minha memória falha. Algumas cenas do Capitão Gancho vêm em minha mente, mas é algo totalmente desconexo. O que lembro, e claramente bem, é do livro Transilvânia, um livro que li todo e que me transportou, magicamente, para outro mundo — o da história contada pela autora, que é brasileira. Não o quis devolver para a biblioteca da escola, mas fui obrigado. Foi o primeiro contato com a literatura que eu tive, e a primeira vez que me senti completamente arrebatado para outro mundo.  via GIPHY
Como meus pais não incentivavam a leitura em casa, passou-se um longo tempo até que eu retornasse para o fantástico mundo dos livros. Dessa vez, Harry Potter. Foi aí que me tornei um leitor frenético, e como meus pa…