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A peste, de Albert Camus


Orã é uma cidade comum. 200 mil habitantes. Os moradores de Orã estão apenas preocupados em como ganhar dinheiro. Suas preocupações não vão além do quanto ganham. Praticamente são insensíveis, não ligam para o próximo, apenas querem ganhar a vida de forma tranquila e honesta. Eles nunca imaginariam que algo de ruim poderia acontecer a todos eles. Estavam preocupados demais pensando em si mesmos. A cidade portuária era uma cidade sem vida, pois não havia verde nas ruas. O narrador desta crônica descreve a cidade como um lugar desprovido de beleza, vida e sentimentos humanos. Porém os concidadãos, maneira como o cronista se refere aos moradores da cidade em terceira pessoa, veem um surto de ratos. Não apenas ratos andando para lá e para cá, mas ratos saindo de seus buracos e morrendo à vista de todos. Sempre em grupo. Muitos ratos mortos. Uma coisa surreal. Nas ruas, ratos. Nas casas, ratos. Nas praças, ratos. A Prefeitura se encarrega de fazer esta limpeza, recolhendo os cadáveres dos bichos. Eis o primeiro sinal de que algo aconteceria com Orã e a vida de todos mudariam completamente.

Após este surto de ratos morrendo por todos os lados, casos de enfermidades, com os mesmos sintomas, aparecem. O primeiro a morrer foi o porteiro. Rieux, nosso protagonista, um médico dedicado à profissão e que encara a doença da sua esposa com esperanças de melhoras, começa a estranhar esses casos. Os sintomas eram os mesmos, e pouco a pouco começaram a morrer mais e mais gente da mesma doença. Não sabiam o que era, Rieux não suspeitava de que era a Peste que faria a colheita durante um ano na relativa pequena cidade de Orã. Após muitos casos de mortos, que apresentaram os mesmos sintomas, os concidadãos da cidade começaram a perceber que algo de muito sério incomodaria suas vidas individualizadas.

Quando a peste é, enfim, reconhecida, o prefeito toma medidas profiláticas e depois fecha os portões da cidade, exilando a todos em sua própria terra. Quem saiu não entrava mais, quem entrou não saia mais, e quem ficou, idem. Rambert, jornalista que não morava em Orã, foi um destes que ficaram exilados em uma terra estrangeira a si mesmo. Com o exílio, veio a dor da separação. Os concidadãos começaram a despertar do sono egoísta em que todos caíram. Sentimentos de ausência abalaram a todos, pois o quão fora difícil ver o ser a quem amavam partir e não voltar. Começava assim algo que derrubaria o forte individualismo que abatia sobre a cidade. Mas até quando todos precisavam se unir, um forte desejo de salvar a si próprios tomou-lhes. Pois com o perigo do contágio, muitos temiam contrair a peste ao ficar próximo de alguém. Foram criadas medidas de quarentena, campos de isolamento, tudo para frear a peste que avançava em seu furor. O número de mortos crescia a cada dia. Mas a sensação era de que logo, em poucas semanas, tudo isto acabaria. O fingimento perante uma tragédia que se abate sob todos nós é mais forte do que a difícil tarefa de lidar com a realidade cruel.

Rieux é um homem compreensível, nunca duvidou de que poderia salvar todos aqueles que estavam sob seus cuidados. Sua mulher partira antes dos portões serem fechados, pois iria para as montanhas se recuperar. Sozinho, mesmo com a ajuda de homens que deram a si mesmos para deter a peste, lutava contra um mal que só crescia. Pois a peste não olhava para cor da pele, classe social, gênero ou idade. Ela, nesse sentido, era igualitária. Na morte, todos são iguais. Perante a morte, todos nós somos iguais. Mas Rieux se aproxima de Tarrou, um homem com princípios e de uma personalidade fortíssima. Sempre calado, Tarrou surpreende o leitor ao fazer um desabafo a Rieux em um terraço com vista para toda a cidade. Esse desabafo é emocionante, e nele há algo de compaixão e incompreensão, mesmo que seus sentimentos sejam verdadeiros. Matar alguém é sempre algo abstrato. Mas quando presencia a execução fria de alguém, com o rifle a pequenos passos do peito do acusado, de modo que ali ficaria um enorme buraco, sua visão sobre condenar alguém que tem vida, pois só se condena quem está vivo, muda. Prefere não assassinar ninguém, e procura por algo que não sabe o que realmente é. Diante de tanta dor, lemos uma cena sensível e muito bela. Rieux e Tarrou estabelece uma amizade forte.

Outros personagens são, até certo ponto, um enigma para o leitor. A exemplo de Cottard, que nas últimas páginas saberemos quem é de fato. Grand, um homem sincero, que sofre por uma separação ainda não esquecida. O juiz Othon, para quem tudo deve ser feito com a mais perfeita ordem, e que trata os filhos insensivelmente, acaba amolecendo o coração e tendo que enfrentar na pele o que a vida tem de valor, o que realmente importa. Assim como os demais, que não citarei nessa resenha, mas que lutam contra a peste física e a peste que cada um carrega consigo. Pois não seria a indiferença, a falta de misericórdia, o materialismo doentio que acomete o homem moderno, o desejo de poder e de sempre ter mais, ganhar mais, o individualismo egoísta, não seria essa uma peste que deveria ser combatida por todos nós? Discordo de certo personagem que diz que o homem tem o coração bom. Não, o homem não tem o coração bom. E seria isso também uma peste?

Mesmo com todo o sofrimento que os moradores de Orã enfrentaram, ainda assim eles permaneceriam indiferentes. Não aprenderiam nada com a dor, o sofrimento, a morte. Esqueceriam dos cadáveres incinerados, jogados aos montes em um buraco, da dor da separação, esqueceriam de tudo o que sofreram para dar continuidade a suas vidas voltadas para si mesmos, sem se importar com a dor do próximo, com a dor do outro, a nossa dor. Há no homem algo que ele não poderá mudar. E é esta inclinação a olhar para si mesmo, satisfazes os seus desejos, a pensar que o mundo apenas gira em torno de si. Como humanos, falhamos inúmeras vezes. Não há esperanças para nós, não em nós. Se quisermos nos livrar da nossa peste existencial (espiritual?), deveríamos olhar além, olhar para cima, olhar para fora de nós. O final de A Peste poderá ser feliz para alguns, mas para mim foi extremamente triste. Desejei, confesso, que a peste voltasse com toda a força, que aqueles homens aprendessem o que não aprenderam. Chorei a morte de alguns, e tive uma aproximação muito grande com Rieux e Tarrou, homens admiráveis. “Na verdade, ao ouvir os gritos de alegria que vinham da cidade, Rieux lembrava-se de que essa alegria estava sempre ameaçada. Porque ele sabia o que essa multidão eufórica ignorava e se pode ler nos livros: o bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis e na roupa, espera pacientemente nos quartos, nos porões, nos baús, nos lenços e na papelada. E sabia, também, que viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria os seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz.”

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