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As pupilas do senhor Reitor, de Júlio Dinis

As Pupilas do Senhor Reitor [Record, 368 pgs, R$32,90] é um clássico da literatura portuguesa. Como o título sugere, as personagens principais são as pupilas do S. Reitor. Margarida e Clara são irmãs, mas uma é o oposto da outra. Enquanto a mais velha, Guida, é reservada e dada às tristezas e melancolia da vida, a outra é alegre, brincalhona e de uma ingenuidade própria das raparigas (leia-se moças) de virtudes do século XIX. A trama gira em torno do já citado S. Reitor, as suas pupilas, o José das Dornas e seus filhos, Pedro e Daniel. Este último, que deveria ter sido padre, não fosse por sua paixão pela pequena Guida – os dois eram crianças – é o caos que agita toda a história. Mandado para a cidade do Porto, Daniel volta já médico para a aldeia onde nascera e passara a infância e causa agitação na pacata aldeia. Suas ideias modernas chocam o médico octogenário, João Semana, e a princípio há certa disputa entre o velho e conservador; o novo e o progressista. Pedro, irmão mais velho …

O Próximo da Fila, de Henrique Rodrigues

O Guardanapo é o novo papiro.
Foto retirada do Google Imagens.

O próximo da fila pode ser um jovem, um empresário, um casal de namorados ou simplesmente uma pessoa que desperta o interesse do atendente pelo seu jeito desastrado. Aqui o protagonista é inominado, assim como as outras personagens. A primeira parte do livro é sobre a infância do nosso protagonista ao lado do pai, que tenta a todo o custo, fazer o filho ser esforçado na vida. Afinal, já tem treze anos, e ‘no tempo do seu pai’, ele já fazia várias coisas, foi expulso de casa e etc. A cena entre pai e filho no supermercado marca para sempre a vida dele. Após alguns anos, quando o pai parte para outro lugar melhor que esse, ele se lembra desse dia ainda com certa raiva.

Com a morte do pai, a família tem que se mudar para outra casa menor. A mãe, com dois filhos para sustentar, vai ter que voltar a trabalhar como empregada doméstica. A ‘primeira’ tia, a irmã do seu pai, vive dizendo que o menino tem que trabalhar para ajudar em casa, tem que se mexer, que foi criado com muito mimo. Ela é aquela velha tia que todos nós temos, que vive dando lição de moral e constrangendo a todos. A ‘segunda’ tia, irmã da sua mãe, é mais compreensiva e não pega muito no pé do menino, apesar de achar a mesma coisa. A mãe também não pressiona o menino, mas sabe que alguma coisa precisa ser feita. Ela sozinha não pode dar conta, e a sua preocupação é no dia do reajuste do aluguel, que já vê que não vai poder arcar. CDF, vindo de escola particular, o protagonista agora tem que estudar em escola pública onde ‘estuda favelado, pobre e burro’. Apesar de seu receio, que se concretiza após levar uma surra quando negou a passar cola, o garoto se acostuma ao colégio público com todas as suas limitações e ensino defasado. Está no primeiro ano e percebe que os assuntos estão muito atrasados.

Quando em um dia ele decide procurar um emprego para ajudar a mãe. Consegue um ‘subemprego’ em uma rede de fast-food internacional, onde logo se acostuma com a rotina da lanchonete e começa a fazer parte de um grupo. Sempre fora mais retraído e com o novo emprego, ele vê que sua vida social pode mudar e conhece novos amigos e o mundo dentro daquela lanchonete. Vê todo tipo de gente, lida com o gerente de bigode sem problemas, com a treinadora, com o amigo negro, com o cristão, o poeta e outros. Sente-se feliz, mesmo que para muitos esse trabalho não seja lá essas coisas. Lá dentro da lanchonete, os funcionários tem que cumprir o Padrão. Tudo pode acontecer, menos quebrar o Padrão. Ver colegas entrando e saindo, suspeitas de roubos ou de não adaptar-se, ou simplesmente por fazer a primeira greve de funcionários da rede de fast-food, que leva o amigo negro, com espírito revolucionário e anti capitalista sendo demitido.

“Mas eu prefiro a palavra escrita. Depois de fazer um curso gratuito de datilografia na escola, descobri que máquinas de escrever têm um barulho tão bom que poderia passar horas e horas batucando nas teclas, que dão vida ritmada às ideias ao mesmo tempo que parecem algo terapêutico.”

Com uma narrativa linear, em primeira pessoa, Henrique Rodrigues publica o seu primeiro romance pela Editora Record. Ambientado na década de 90, o autor escreve de forma leve e fluida, com personagens invisíveis ao dia a dia, tensões familiares, dosa bem o humor e aborda alguns assuntos sutilmente como preconceito, exploração no trabalho e a desigualdade social. O namoro com a cliente que lê Drummond, tem o desenvolvimento muito bonito mas acaba com um final trágico. Leitura rápida, gostosa – todas aquelas batatas, hambúrgueres, me deu água na boca. Misturando ficção com realidade, realidade com ficção, O Próximo da Fila é um romance agradável e surpreendente.

Comentários

  1. Parece um livro muito interessante, é preciso coragem e talento pra criar uma obra sobre uma pessoa comum, anônima. Se o autor for criativo mesmo, dará muito "pano pra manga".

    Gostei da resenha, muito boa.

    Alessandro Bruno
    www.rascunhocomcafe.com/2015/11/rocky-balboa-nao-se-trata-de-quanto.html

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, Alessandro! O livro é realmente muito bom, e diferente. Original. O autor leva o leitor por situações dramáticas e engraçadas, e faz com que os leitores embarquem na sua história, mesmo não sabendo qual o nome do protagonista. Vale a pena a leitura.

      Abraços!

      Excluir

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