Pular para o conteúdo principal

Múltipla Escolha, de Alejandro Zambra

O começo do livro foi bem nada com nada, me senti perdido. Qual o leitor que está acostumado com um livro, que conta diversas histórias sobre os mais variados assuntos, no formato de questões de vestibulares? Por isso o título “Múltipla Escolha”. É um chamado para sair do óbvio e forçar a mente a tirar significado de algo, primeiramente, sem sentido. Algumas páginas adiante já comecei a entrar na ideia do autor e acabei adorando o livro. Frases pequenas, com múltiplas escolhas para substituir os espaços em brancos, faz invocar logo aqueles tempos de escola. Acostumados a obedecer e ter que marcar alguma alternativa, percebermos o quanto fomos treinados e não educados, como o autor enfatiza. Aliás, é um dos assuntos que mais me marcou e proporcionou pensamentos filosóficos sobre o nosso sistema educacional, onde somos treinados a dar uma resposta correta, com medo de que não seja a correta, mesmo que outra alternativa faça mais sentido. 
Por que devemos adivinhar o que o professor/educa…

O Tom Ausente de Azul | Resenha do Livro


O Tom Ausente de Azul é um livro encantador. Jennie Erdal dá um toque filosófico ao romance com diálogos sobre a vida e a morte, a felicidade e a tristeza, o ciúme e o amor. Edgar Logan é um tradutor francês que está se mudando para a Escócia a fim de traduzir os ensaios de David Hume, um filósofo, historiador e ensaísta escocês que se tornou célebre por seu empirismo radical e seu ceticismo filosófico. A história é inspirada na obra desse gigante iluminista, e o título do livro se refere à capacidade de reconhecer um tom de azul mesmo sem nunca tê-lo visto, apenas intuindo sua existência a partir de outros tons.

Eddie, como é chamado ao decorrer do enredo, tem uma vida solitária. Não costuma estar com muitas pessoas e acha essa ideia um pouco desconfortável. Ele vai à Escócia para traduzir os ensaios de David Hume, filósofo que ele e o pai tanto admiravam.
Sem pretender deixar marcas, ele acaba se envolvendo na vida conturbada de um casal que está em crise. No primeiro dia que ele chega ao país escocês, ele vai a uma palestra e lá conhece Harry Sanderson. Isso não estava nos seus planos, muito menos se tornar amigo de um filósofo que leciona na universidade onde Eddie tinha se candidatado ao cargo honorário no departamento de filosofia. Desde então sua vida começa a ganhar outro rumo, o qual ele não imaginava. Após conhecer Harry, Eddie foi convidado a jantar na casa dele. Lá ele conheceu a esposa do seu mais recente amigo, Carrie Sanderson. Uma artista linda, que pintava belos quadros e que nada tinha a ver com aquela figura gorda e velha que era Harry.

Harry já conversava com Eddie como se o conhecesse há tempos, o que dificultou mais ainda de Eddie se afastar. Pois por mais estranho, ele também sentia o mesmo por Harry. Os diálogos de Eddie e Harry é tão filosófico e ao mesmo tempo tão deslumbrante que nos fazem ficar lendo eles pela noite inteira. Harry é um cético, que desacredita e caçoa dos filósofos, que perdeu o brilho nos olhos pela filosofia. Seus argumentos são ácidos e bem-humorados, o que faz deste personagem tão próximo de nós, mas ao mesmo tempo distante. Uma hora concordamos com o ceticismo dele, na outro estamos querendo que ele cale a boca. E o mais interessante é que o narrador fala muito pouco na presença de Harry, pois a conversa é sempre mantida por causa dele, como se Eddie não estivesse ali. A relação de Eddie e Harry é de amigos íntimos, e a de Eddie com Carrie é mais de admiração, ele nutre por ela alguma paixão que não sabemos até que ponto isso poderá levar, e nem se essa paixão existe.

A autora criou personagens complexos, todos levam consigo a marca do sofrimento iminente ao ser-humano, e isso faz deles mais humanos e mais próximos de nós. É como se estivéssemos lendo algo sobre pessoas que conhecêssemos, e isso é muito bom. Identifiquei-me imediatamente com Eddie, não vou me estender nesse assunto, pois seria um tanto pessoal demais. Jennie Erdal despiu os personagens ao desenvolver da história, mostrando suas marcas na alma que os fazem desacreditar em algo como a felicidade, que os fazem se perguntar sobre a vida e a morte. E vemos que Eddie, Carrie, Harry, Alfie e outros personagens tem um pouco de nós, um pouco de nossas dúvidas, um pouco de nossa tristeza, um pouco da nossa vida. É um livro que nos fazem enxergar esse tom ausente de azul.

Mais Informações:

Título: O Tom Ausente de Azul
Autor: Jennie Erdal
Editora: Bertrand Brasil
Páginas: 378
Avaliação: 
Sinopse: Viajando a Edimburgo a trabalho, o francês Edgar Logan prevê uma temporada de iluminação e tranquilidade. Já na Escócia, Edgar conhece por acaso Harry Sanderson e sua cativante esposa, a artista Carrie. A partir daí, sua vida meticulosa passa por um turbilhão, e a viagem que se pretendia estritamente profissional ganha uma carga dramática à qual Edgar nunca se vira acostumado — na verdade, sempre evitara.

Atraído pelo casamento conturbado dos Sanderson, Edgar deve enfrentar seus medos mais profundos e seu crescente interesse pela encantadora Carrie. Quanto mais ele descobre os muitos segredos dessa família, mais a viagem ganha ares de thriller. Edgar não é mais o mesmo homem: o turbilhão (do qual ele não sabe quando nem como sairá) já lhe deixou marcas indeléveis. Logo nele, que parece querer passar pela vida sem deixar assinatura.
Tradutor: Pierre Menard

Comentários

  1. A premissa parece ser bem interessante e esse trabalho de capa está fantástico. Eu adoro livros que dão um foco em arte, seja escrita ou visual; esse parece ter uma visão interessante. Aliás, ótima resenha .

    www.itgeekgirls.wordpress.com

    ResponderExcluir
  2. Oi!
    Nunca li livros muito filosóficos e que dão atenção a arte, mas esse surpreendentemente me chamou a atenção.
    Gostei do fato de a autora trazer tantos temas bons para serem explorados, para o livro. Isso certamente só deve enriquecer ainda mais a história!

    Beijos
    http://ummundochamadolivros.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  3. Olá!
    Não conhecia o livro. a história me pareceu bem legal e saber que os personagens são mais humanos me deixa com mais vontade de conhecer a história.
    Adorei a resenha.
    Beijinhos!
    http://eraumavezolivro.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  4. Olá, parabéns pela resenha.
    Gostei muito da premissa, principalmente por ter esse ar filosófico. Só não leria no momento por não ser o ideal, mas com certeza irei lê-lo um dia.
    Beijos e sucesso.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Leia o conto "O Gato Preto", de Edgar Allan Poe

Não espero nem peço que acreditem nesta narrativa ao mesmo tempo estranha e despretensiosa que estou a ponto de escrever. Seria realmente doido se esperasse, neste caso em que até mesmo meus sentidos rejeitaram a própria evidência. Todavia, não sou louco e certamente não sonhei o que vou narrar. Mas amanhã morrerei e quero hoje aliviar minha alma. Meu propósito imediato é o de colocar diante do mundo, simplesmente, sucintamente e sem comentários, uma série de eventos nada mais do que domésticos. Através de suas consequências, esses acontecimentos me terrificaram, torturaram e destruíram. Entretanto, não tentarei explicá- los nem justificá-los. Para mim significaram apenas Horror, para muitos parecerão menos terríveis do que góticos ou grotescos. Mais tarde, talvez, algum intelecto surgirá para reduzir minhas fantasmagorias a lugares-comuns – alguma inteligência mais calma, mais lógica, muito menos excitável que a minha; e esta perceberá, nas circunstâncias que descrevo com espanto, na…

O livro sobre nada | Poema de Manoel de Barros

O livro sobre nada

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu que…

Download gratuito de livros: Crime ou um mal necessário?

Há dias atrás, questionei sobre a prática de downloads de livros de graça na internet. Eu mesmo confesso que sou um desses praticantes, e a reação das pessoas foram das mais diversas. Alguns entediam, e mesmo assim afirmava que era contra tal prática; outros, mais exaltados, diziam que isso era crime, e comparava as pessoas que baixavam e baixam livros pela internet como criminosos de alta periculosidade; outros, que era totalmente a favor de tal prática, explicava sua opinião sobre o assunto e depois era "crucificado" por tal afirmação — a de que baixava livros de graça sim, obrigado.

Os argumentos contrários eram contraditórios, pois afirmavam que tal prática afetava justamente aquele autor iniciante que ralava muito para publicar de forma independente, e quando conseguiam, alguém ia lá e disponibilizava gratuitamente seu ebook para download. Sendo que esse argumento é falho e refutável, pois a "demanda" e a real "necessidade" de baixar livros gratuitame…