Múltipla Escolha, de Alejandro Zambra


O começo do livro foi bem nada com nada, me senti perdido. Qual o leitor que está acostumado com um livro, que conta diversas histórias sobre os mais variados assuntos, no formato de questões de vestibulares? Por isso o título “Múltipla Escolha”. É um chamado para sair do óbvio e forçar a mente a tirar significado de algo, primeiramente, sem sentido. Algumas páginas adiante já comecei a entrar na ideia do autor e acabei adorando o livro. Frases pequenas, com múltiplas escolhas para substituir os espaços em brancos, faz invocar logo aqueles tempos de escola. Acostumados a obedecer e ter que marcar alguma alternativa, percebermos o quanto fomos treinados e não educados, como o autor enfatiza. Aliás, é um dos assuntos que mais me marcou e proporcionou pensamentos filosóficos sobre o nosso sistema educacional, onde somos treinados a dar uma resposta correta, com medo de que não seja a correta, mesmo que outra alternativa faça mais sentido. 

Por que devemos adivinhar o que o professor/educador acha que é o correto, sendo que nós também podemos ter outra leitura e outro olhar sobre o mesmo texto, portanto, extraindo significados que são diferentes do que o professor acha? Não devíamos exercitar a nossa mente, sermos seres pensantes e sermos críticos, como dizem por aí? Ou tudo isso são apenas bobagem, propaganda barata para que os pais se sintam realizados ao verem seus filhos recebendo uma educação de “qualidade”, quando na verdade estão sendo treinados a pensar sob uma, e apenas uma, perspectiva? Tomemos como exemplo o Exame Nacional do Ensino Médio. Vamos pensar mais sobre os temas da redação de cada ano. O quanto você mentiu para que pudesse agradar os examinadores e tirar uma nota alta? Você realmente acredita naquelas palavras que escreveu ou apenas escreveu aquela redação, nota alta – 800 a 1000 – para agradar os outros, quero dizer, as pessoas que corrigiriam a sua redação? São essas reflexões que você pode tirar com aquelas questões. Claro que o leitor pode tirar outras reflexões que não seja essa, talvez até saia marcando de verdade o livro todo e marcando o gabarito no final do livro… vai saber.

As questões mais extensas são contos, muito bons, que me fez rir muito. E vai fazer você rir também, se tiver algum senso de humor. A história sobre o pai que escreveu uma carta para o filho e contou que talvez ele não quisesse que o filho existisse, e assim conta a história dele com a mãe do garoto, que parece ter 18 anos, o narrador deixa isso no ar, é muito forte. Sim, pensei: se fosse o meu pai que escrevesse essa carta? Será que ele já pensou nisso, como seria a sua vida sem filhos? Será que ele queria ter mesmo filhos, ou foi algo que não pôde evitar? Perguntas essas que são feitas nas alternativas a ser marcada sobre a leitura desse texto, que às vezes complementa a história do texto principal.

O que Alejandro Zambra propõe, acredito, seja que o leitor dê sentido às histórias que ele escreveu. Qual seria o melhor título? O que achamos das personagens? O que levaram as personagens a tomar tal e tal atitude? Qual a mensagem? O que nós faríamos? Tratando de assuntos sérios, mas sempre de maneira sarcástica, somos convidados a questionar o que nos tornamos e em quê nos tornamos. Por que hoje as pessoas preferem ter bichos de estimação e não filhos? E se abortássemos nossos filhos? Por que o divórcio foi tardiamente legislado no Chile? Por que as pessoas se casam, para logo depois se divorciarem? Não seria melhor anularem e esquecer de que um dia foram casadas? Por que os pais acham que os filhos são como cachorrinhos, que podem ser domesticados? Por que temos que aprender algo que não nos ajudará em nada em nossa vida adulta e solitária? Por que somos protegidos do mundo, criados sob uma redoma, para depois sermos atirados na ‘selva’? Em uma sentada dá pra ler o livro, se divertir e ainda questionar sobre essas coisas. Leve e também filosófico, uma grata surpresa.


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