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Como me tornei um leitor

A leitura é um prazer quase de outro mundo. Quando descobri o mundo dos livros, já muito tarde, eu estava prestes a ingressar no ensino médio. Lembro-me de antes disso ler alguns livros, mas ainda não era fascinado pela leitura. Ao tentar buscar onde esse desejo apareceu pela primeira vez, minha memória falha. Algumas cenas do Capitão Gancho vêm em minha mente, mas é algo totalmente desconexo. O que lembro, e claramente bem, é do livro Transilvânia, um livro que li todo e que me transportou, magicamente, para outro mundo — o da história contada pela autora, que é brasileira. Não o quis devolver para a biblioteca da escola, mas fui obrigado. Foi o primeiro contato com a literatura que eu tive, e a primeira vez que me senti completamente arrebatado para outro mundo.  via GIPHY
Como meus pais não incentivavam a leitura em casa, passou-se um longo tempo até que eu retornasse para o fantástico mundo dos livros. Dessa vez, Harry Potter. Foi aí que me tornei um leitor frenético, e como meus pa…

Roger Scruton defende em “A alma do mundo” a experiência do sagrado frente aos ateísmos contemporâneos


Um dos mais respeitados nomes do conservadorismo britânico, Roger Scruton evita defender a prática ou doutrina de uma fé em especial.  No entanto, em seu novo livro, “A alma do mundo”, o filósofo lança seu olhar sobre uma visão religiosa do mundo, que, a seu ver, não pode ser captada pelas lentes dos materialistas e dos naturalistas.

Longe de apresentar uma defesa da existência de Deus, Scruton argumenta que, independentemente do significado evolucionista que possa ser atribuído à crença religiosa e seu papel na seleção natural, há uma função fundamental que ela representa, referente à manutenção da vida humana:

“As religiões dão foco e ampliam o senso moral; elas cercam aqueles aspectos da vida nas quais as responsabilidades pessoais estão enraizadas, notavelmente, o sexo, a família, o território e a lei. Elas alimentam as emoções distintamente humanas, como esperança e caridade, que nos elevam acima dos motivos que regem a vida dos outros animais e nos levam a viver pela cultura, não pelo instinto”, conclui.     

O autor afirma que as discussões atualmente em voga sobre as crenças religiosas estão relacionadas ao confronto entre o cristianismo e a ciência moderna e aos ataques terroristas do 11 de setembro, que aumentaram a tensão entre o Islã e o mundo ocidental.  No entanto, Scruton reforça que os embates têm origens diferentes. Sendo o primeiro intelectual e o segundo emocional.

A ALMA DO MUNDO
(The soul of the world)
De Roger Scruton
Tradução: Martim Vasques da Cunha
238 páginas
R$ 44,90
Editora Record
(Grupo Editorial Record)
“A alma do mundo” propõe uma reflexão sobre a importância do sagrado no mundo e o que seu esvaziamento pode significar.

Trecho:

“Se há alguma mensagem a ser extraída dos meus raciocínios é que a ideia de salvação — de uma relação correta com o criador — precisa aceitar a morte, no sentido de que, diante dela, encontramos o nosso criador, a quem devemos prestar contas das nossas falhas. Retornamos ao lugar de onde surgimos, à espera de sermos bem recebidos ali. Este é um pensamento místico e não há como traduzi-lo no idioma da ciência natural, que fala do antes e do depois, não sobre o tempo e sobre a eternidade. A religião, tal como eu a considero, não descreve o mundo natural, mas o Lebenswelt, o mundo dos sujeitos, com o uso de alegorias e de mitos para nos lembrar, no nosso nível mais profundo, quem e o que somos nós. E Deus é o sujeito que tudo conhece e que nos recepciona assim que atravessarmos para o outro domínio, além do véu da natureza. Abordar a morte dessa maneira é, portanto, se aproximar de Deus: nos tornamos, por meio das nossas obras de amor e de sacrifício, uma parte da ordem eterna; realizamos a ‘travessia’ para aquele outro lugar, para que a morte não se torne mais uma ameaça para nós. A vida da oração nos resgata da Queda e nos prepara para uma morte que podemos significativamente ver como uma redenção, pois ela nos une à alma do mundo.”
Roger Scruton foi professor de Estética na Birkbeck College, Londres, e professor da Universidade de Boston. Escreve regularmente para The TimesThe Telegraph e The SpectatorÉ auto de diversos livros, entre eles,  Como ser um conservador, também publicado pela Record.

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