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Como me tornei um leitor

A leitura é um prazer quase de outro mundo. Quando descobri o mundo dos livros, já muito tarde, eu estava prestes a ingressar no ensino médio. Lembro-me de antes disso ler alguns livros, mas ainda não era fascinado pela leitura. Ao tentar buscar onde esse desejo apareceu pela primeira vez, minha memória falha. Algumas cenas do Capitão Gancho vêm em minha mente, mas é algo totalmente desconexo. O que lembro, e claramente bem, é do livro Transilvânia, um livro que li todo e que me transportou, magicamente, para outro mundo — o da história contada pela autora, que é brasileira. Não o quis devolver para a biblioteca da escola, mas fui obrigado. Foi o primeiro contato com a literatura que eu tive, e a primeira vez que me senti completamente arrebatado para outro mundo.  via GIPHY
Como meus pais não incentivavam a leitura em casa, passou-se um longo tempo até que eu retornasse para o fantástico mundo dos livros. Dessa vez, Harry Potter. Foi aí que me tornei um leitor frenético, e como meus pa…

Silêncio, de Shusaku Endo


Um romance sobre fé, tentação, apostasia e o silêncio de Deus. Ao saber que o padre Ferreira havia apostatado no Japão – pano de fundo desse intenso e angustiante romance –, os padres Rodrigues e Garpe decidem ir ver com os próprios olhos se tal informação procedia. Também decidiram ir para dar o pão aos famintos cristão japoneses, que não tinham mais alguém que os instruísse na fé e os ensinassem as doutrinas do cristianismo. Mesmo sabendo dos perigos que enfrentariam, pois o magistrado Inoue era conhecido além-mar por sua fúria e métodos cruéis para com aqueles que professavam e não negavam a fé em Deus. Mas, ao chegar clandestinamente ao Japão e ver em quais condições aqueles pobres coitados camponeses viviam, uma batalha interior emerge de dentro da alma dos padres – mais em Rodrigues, do que em Garpe. Pouco conhecemos o padre Garpe, pois a narrativa é do próprio Rodrigues que enviara cartas à Portugal, terra dos dois sacerdotes, e depois um narrador em terceira pessoa dá prosseguimento aos relatos da vida de Rodrigues.

O ser humano é estranho. Em algum lugar do coração, ele tem sempre o sentimento de que triunfará, não importando quais perigos enfrente. É tal qual nos dias de chuva em que acreditamos enxergar débeis raios de sol numa colina distante. (p. 68)

A fé somente se torna inabalável quando ela é abalada, e daí se sabe se a fé que possuímos era autêntica – fincada em raízes profundas – ou se ela é apenas o resultado de ações exteriores que de nada adiantam para nutrir a fé que nunca morrerá nem vacilará, mesmo nos momentos mais difíceis. E é ao ler a história de um Japão hostil ao cristianismo que o leitor cristão se pega a pensar o que eles fariam em tal situação. Fugiria? Apostataria? Amaldiçoaria o nome de Cristo Jesus, assim como a mulher de Jó o aconselhou? Ou ficaríamos como Jó, que mesmo com todas as dificuldades e sofrimentos, não O negou? O silêncio de Deus é algo que nos incomoda, e incomoda o padre Rodrigues. Muitas vezes lemos sua indagação ao Pai Criador do porquê Ele continuar em silêncio, mesmo quando os seus filhos sofriam terrível perseguição e morriam uma morte extremamente dolorosa. O padre Rodrigues tem fé, mas também é humano. E como todo ser humano, ele não entende como Deus pode se calar em situações injustas. Mas Deus é Absoluto, e mesmo não entendendo o que está acontecendo, Ele sabe de todas as coisas. Mas a situação de Rodrigues era outra, e por muitas vezes pensa em dar fim de uma vez por todas com o sofrimento daqueles pobres que eram explorados pelas autoridades japonesas. Eram pobres e eram escravos, mas suas almas eram livres. E assim, muitos se reuniam secretamente para os sacramentos, confissão dos pecados, batismo.

Mas Cristo não morreu pelos bons e belos. É bastante fácil morrer pelos bons e belos; o difícil é morrer pelos desgraçados e corruptos – eis do que me dei intensamente conta naquele momento. (p. 72)

O cristianismo não fincava as raízes no japão de 1638. Os missionários encontravam grandes dificuldades para espalhar as Boas Novas naquele país. Mas houve um tempo em que o cristianismo era bem-vindo, e muitos tinham sido cristãos – ao menos 300 mil. Mas o que levara, mais adiante, o cristianismo ser considerado como o inimigo do Japão? Talvez porque o cristianismo ameaçava o budismo, religião dos japoneses. Talvez por ressentimento. Silêncio é um romance denso, angustiante e metafísico. Ao lermos, não apenas sabemos como era o Japão há tantos séculos atrás, mas também nos vemos envolvidos com a aflição de cristãos que estavam provando o silêncio de Deus. Ele estava em silêncio, mas a cada parágrafo que lemos, Ele está lá. Aqueles que morreram no suplício do poço certamente não morreram por um deus estranho. Ficamos decepcionados – é essa a palavra certa? – com o desfecho de Rodrigues. Nos apegamos a essa personagem que tão nos é familiar, mesmo com séculos nos distanciando. O silêncio que o padre clamava para ser interrompido, é o mesmo silêncio pelo qual passamos. Queremos ouvir a sua Voz, mas em resposta há apenas silêncio. Mas isso não quer dizer que Ele não exista, ou que não está conosco. Ás vezes o silêncio também é uma resposta, mas é impossível imaginar como nos comportaríamos em tal situação.

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