Pular para o conteúdo principal

Como me tornei um leitor

A leitura é um prazer quase de outro mundo. Quando descobri o mundo dos livros, já muito tarde, eu estava prestes a ingressar no ensino médio. Lembro-me de antes disso ler alguns livros, mas ainda não era fascinado pela leitura. Ao tentar buscar onde esse desejo apareceu pela primeira vez, minha memória falha. Algumas cenas do Capitão Gancho vêm em minha mente, mas é algo totalmente desconexo. O que lembro, e claramente bem, é do livro Transilvânia, um livro que li todo e que me transportou, magicamente, para outro mundo — o da história contada pela autora, que é brasileira. Não o quis devolver para a biblioteca da escola, mas fui obrigado. Foi o primeiro contato com a literatura que eu tive, e a primeira vez que me senti completamente arrebatado para outro mundo.  via GIPHY
Como meus pais não incentivavam a leitura em casa, passou-se um longo tempo até que eu retornasse para o fantástico mundo dos livros. Dessa vez, Harry Potter. Foi aí que me tornei um leitor frenético, e como meus pa…

O animal mais perigoso de todos, de Gary L. Stewart


O relato de Gary L. Stewart à procura da sua identidade é surpreendente. Quando a sua mãe biológica entra em contato com seus pais adotivos, estes ficam um pouco apreensivos, pois tinham medo de que o filho sofresse nesse processo desgastante. Ao conhecer Judy Gilford, Gary começa a compreender um pouco do seu passado, e fica mais aliviado por saber que não foi abandonado como se fosse uma coisa qualquer, e não como um pequeno e frágil ser humano. Mas o que ele não esperaria – quem esperaria? – era que seus pais biológicos eram emocionalmente desestruturados e o que ele pensava saber não chegaria aos pés da dura e cruel realidade.

Conforme vai conhecendo e se relacionando melhor com a mãe biológica, tentando recuperar o tempo perdido, Gary quer saber a identidade do pai biológico. Judy alerta de que seria melhor deixar essa busca de lado – pois iria se decepcionar. Mas Gary insiste, e com toda a força e coragem que tem, vai juntando todas as pistas sobre o pai. O que acabara descobrindo deixaria qualquer um louco: Earl Van Best Jr., o homem responsável por trazer Gary ao mundo, era o assassino do Zodíaco. Como lidar com esse fato terrível sobre o seu passado e o seu pai? Ele era filho de um assassino em série que sacudiu e assombrou os EUA nas décadas de 60 e 70.



O livo relata, em forma de romance, como tudo começou. “O romance da sorveteria” narra como Earl Van, de 27 anos, se apaixona por Judy Gilford, uma garota de 14 anos. Ele a sequestrou, casou com a adolescente e tiveram um filho. A sucessão dos fatos leva Van à prisão alguma vezes, e a separação de Judy desperta em seu coração um ódio feroz e mortal. Sua maneira de se vingar da menina que o abandonou é assassinando garotas que tinham semelhanças com Judy. Os assassinatos em série ganharam popularidade quando ele começou a enviar cartas para os jornais locais, detalhando os motivos de cada morte que ele cometera. Mas não somente isso, o que elevou o assassino do Zodíaco a uma espécie de subcelebridade maligna foram os códigos cifradas que enviava junto às cartas. Por anos e anos, amadores e profissionais tentaram decifrar esses códigos com o objetivo de revelar a identidade do Zodíaco, mas fracassaram. E assim os casos permaneceriam sem solução até Gary começar a investigar quem era o seu pai.

O livro é rico em detalhes e traça um perfil do assassino desdo o início da família Van Best, passando pela infância solitária de Van, a ida da família ao Japão no início da Segunda Guerra Mundial, as traições constante da mãe que manchavam a reputação do pastor metodista, a separação dos pais, a entrada para a universidade, até a viagem para Londres onde, supostamente, tudo começou. Um homem extremamente inteligente, mas que deixou ser levado pelo ressentimento e orgulho, e deixou que o mal tomasse conta do seu coração e dominasse suas atitudes. Vale a pena cada página, que contextualiza outros acontecimentos da mesma época, desde Charles Manson até LaVey, o criador da igreja satânica dos EUA – que era frequentada pelo assassino do Zodíaco algumas vezes. Gary L. Stewart é um homem admirável e a sua história surpreendente e emocionante. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Leia o conto "O Gato Preto", de Edgar Allan Poe

Não espero nem peço que acreditem nesta narrativa ao mesmo tempo estranha e despretensiosa que estou a ponto de escrever. Seria realmente doido se esperasse, neste caso em que até mesmo meus sentidos rejeitaram a própria evidência. Todavia, não sou louco e certamente não sonhei o que vou narrar. Mas amanhã morrerei e quero hoje aliviar minha alma. Meu propósito imediato é o de colocar diante do mundo, simplesmente, sucintamente e sem comentários, uma série de eventos nada mais do que domésticos. Através de suas consequências, esses acontecimentos me terrificaram, torturaram e destruíram. Entretanto, não tentarei explicá- los nem justificá-los. Para mim significaram apenas Horror, para muitos parecerão menos terríveis do que góticos ou grotescos. Mais tarde, talvez, algum intelecto surgirá para reduzir minhas fantasmagorias a lugares-comuns – alguma inteligência mais calma, mais lógica, muito menos excitável que a minha; e esta perceberá, nas circunstâncias que descrevo com espanto, na…

Ostra feliz não faz pérola, de Rubem Alves

Bem, vou começar falando o quanto eu aprendi lendo esse livro. Quando falo livro, acho que estou me referindo a mais um livro qualquer, o que não é o caso de Ostra feliz não faz pérola. Rubem Alves é simplesmente incrível, e seus textos que fazem parte do livro são maravilhosos. Claro que tem alguns ao qual eu não concorde muito, mas sobre isso não tenho nada a acrescentar, porque continua sendo maravilhoso de todo o jeito. Acho que vocês estão aí pensando que estou me referindo muito bem ao livro, e que isso cheire a alguma forma de merchan. Mas não caros leitores, quem teve o prazer de ler Rubem Alves sabe do que estou escrevendo.  Os textos falam sobre sofrimento que produz a beleza, da morte que conduz à vida, do envelhecimento que traz a juventude não vivida, do sagrado que está em todos os lugares. São doses de sabedorias que quero tomar sempre. O Rubem fala muito em suas crônicas de Nietzsche, Bach, Cecília e tantos outros ao qual ele admirava. Ostra feliz não faz pérola é uma gr…

O livro sobre nada | Poema de Manoel de Barros

O livro sobre nada

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu que…