Pular para o conteúdo principal

Múltipla Escolha, de Alejandro Zambra

O começo do livro foi bem nada com nada, me senti perdido. Qual o leitor que está acostumado com um livro, que conta diversas histórias sobre os mais variados assuntos, no formato de questões de vestibulares? Por isso o título “Múltipla Escolha”. É um chamado para sair do óbvio e forçar a mente a tirar significado de algo, primeiramente, sem sentido. Algumas páginas adiante já comecei a entrar na ideia do autor e acabei adorando o livro. Frases pequenas, com múltiplas escolhas para substituir os espaços em brancos, faz invocar logo aqueles tempos de escola. Acostumados a obedecer e ter que marcar alguma alternativa, percebermos o quanto fomos treinados e não educados, como o autor enfatiza. Aliás, é um dos assuntos que mais me marcou e proporcionou pensamentos filosóficos sobre o nosso sistema educacional, onde somos treinados a dar uma resposta correta, com medo de que não seja a correta, mesmo que outra alternativa faça mais sentido. 
Por que devemos adivinhar o que o professor/educa…

O animal mais perigoso de todos, de Gary L. Stewart


O relato de Gary L. Stewart à procura da sua identidade é surpreendente. Quando a sua mãe biológica entra em contato com seus pais adotivos, estes ficam um pouco apreensivos, pois tinham medo de que o filho sofresse nesse processo desgastante. Ao conhecer Judy Gilford, Gary começa a compreender um pouco do seu passado, e fica mais aliviado por saber que não foi abandonado como se fosse uma coisa qualquer, e não como um pequeno e frágil ser humano. Mas o que ele não esperaria – quem esperaria? – era que seus pais biológicos eram emocionalmente desestruturados e o que ele pensava saber não chegaria aos pés da dura e cruel realidade.

Conforme vai conhecendo e se relacionando melhor com a mãe biológica, tentando recuperar o tempo perdido, Gary quer saber a identidade do pai biológico. Judy alerta de que seria melhor deixar essa busca de lado – pois iria se decepcionar. Mas Gary insiste, e com toda a força e coragem que tem, vai juntando todas as pistas sobre o pai. O que acabara descobrindo deixaria qualquer um louco: Earl Van Best Jr., o homem responsável por trazer Gary ao mundo, era o assassino do Zodíaco. Como lidar com esse fato terrível sobre o seu passado e o seu pai? Ele era filho de um assassino em série que sacudiu e assombrou os EUA nas décadas de 60 e 70.



O livo relata, em forma de romance, como tudo começou. “O romance da sorveteria” narra como Earl Van, de 27 anos, se apaixona por Judy Gilford, uma garota de 14 anos. Ele a sequestrou, casou com a adolescente e tiveram um filho. A sucessão dos fatos leva Van à prisão alguma vezes, e a separação de Judy desperta em seu coração um ódio feroz e mortal. Sua maneira de se vingar da menina que o abandonou é assassinando garotas que tinham semelhanças com Judy. Os assassinatos em série ganharam popularidade quando ele começou a enviar cartas para os jornais locais, detalhando os motivos de cada morte que ele cometera. Mas não somente isso, o que elevou o assassino do Zodíaco a uma espécie de subcelebridade maligna foram os códigos cifradas que enviava junto às cartas. Por anos e anos, amadores e profissionais tentaram decifrar esses códigos com o objetivo de revelar a identidade do Zodíaco, mas fracassaram. E assim os casos permaneceriam sem solução até Gary começar a investigar quem era o seu pai.

O livro é rico em detalhes e traça um perfil do assassino desdo o início da família Van Best, passando pela infância solitária de Van, a ida da família ao Japão no início da Segunda Guerra Mundial, as traições constante da mãe que manchavam a reputação do pastor metodista, a separação dos pais, a entrada para a universidade, até a viagem para Londres onde, supostamente, tudo começou. Um homem extremamente inteligente, mas que deixou ser levado pelo ressentimento e orgulho, e deixou que o mal tomasse conta do seu coração e dominasse suas atitudes. Vale a pena cada página, que contextualiza outros acontecimentos da mesma época, desde Charles Manson até LaVey, o criador da igreja satânica dos EUA – que era frequentada pelo assassino do Zodíaco algumas vezes. Gary L. Stewart é um homem admirável e a sua história surpreendente e emocionante. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Leia o conto "O Gato Preto", de Edgar Allan Poe

Não espero nem peço que acreditem nesta narrativa ao mesmo tempo estranha e despretensiosa que estou a ponto de escrever. Seria realmente doido se esperasse, neste caso em que até mesmo meus sentidos rejeitaram a própria evidência. Todavia, não sou louco e certamente não sonhei o que vou narrar. Mas amanhã morrerei e quero hoje aliviar minha alma. Meu propósito imediato é o de colocar diante do mundo, simplesmente, sucintamente e sem comentários, uma série de eventos nada mais do que domésticos. Através de suas consequências, esses acontecimentos me terrificaram, torturaram e destruíram. Entretanto, não tentarei explicá- los nem justificá-los. Para mim significaram apenas Horror, para muitos parecerão menos terríveis do que góticos ou grotescos. Mais tarde, talvez, algum intelecto surgirá para reduzir minhas fantasmagorias a lugares-comuns – alguma inteligência mais calma, mais lógica, muito menos excitável que a minha; e esta perceberá, nas circunstâncias que descrevo com espanto, na…

O livro sobre nada | Poema de Manoel de Barros

O livro sobre nada

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu que…

Download gratuito de livros: Crime ou um mal necessário?

Há dias atrás, questionei sobre a prática de downloads de livros de graça na internet. Eu mesmo confesso que sou um desses praticantes, e a reação das pessoas foram das mais diversas. Alguns entediam, e mesmo assim afirmava que era contra tal prática; outros, mais exaltados, diziam que isso era crime, e comparava as pessoas que baixavam e baixam livros pela internet como criminosos de alta periculosidade; outros, que era totalmente a favor de tal prática, explicava sua opinião sobre o assunto e depois era "crucificado" por tal afirmação — a de que baixava livros de graça sim, obrigado.

Os argumentos contrários eram contraditórios, pois afirmavam que tal prática afetava justamente aquele autor iniciante que ralava muito para publicar de forma independente, e quando conseguiam, alguém ia lá e disponibilizava gratuitamente seu ebook para download. Sendo que esse argumento é falho e refutável, pois a "demanda" e a real "necessidade" de baixar livros gratuitame…