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"Bartleby, o escrivão", de Herman Melville

Ao ler “Bartleby, o escrivão”, o leitor fica curioso em saber mais do personagem tão excêntrico. A história é narrada por um advogado, dono de um escritório, que começa a explicar como conheceu Bartleby. Primeiro apresenta seus funcionários e suas manias peculiares, pois Nippers pela parte da manhã tem um temperamento efusivo, mas a tarde fica gentil; e Turkey agia de modo semelhante, mas ao contrário: pela manhã era cortês e gentil, e à tarde era, como o próprio narrador o descreve, insolente. Mas o que o levaria a continuar empregando esses homens tão estranhos? Podemos julgar o caráter dele pelo modo que trata Bartleby. É um homem paciente, e que gosta de ver o lado positivo e lucrativo das coisas. O terceiro empregado é um menino, aparentemente normal. Mas quando conhece Bartleby, a história beira o absurdo. Não sabemos o seu nome, só que era advoga e idoso quando começou a contar quem era Bartleby.

Preferia não fazê-lo” é uma frase que será repetida várias vezes, e que fará parte do vocabulário dos homens daquele escritório. Um homem calado, quieto, que cumpria o seu ofício diligentemente, mas apático obstinado: esse era Bartleby. Ao receber ordens do seu empregador, Bartleby simplesmente dizia: prefiro não fazê-lo. Quando recebeu essa resposta desconcertante pela primeira vez, o advogado fica nervoso e sem saber o que fazer. Como assim preferia não fazê-lo? Ao ser indagado por ter uma atitude tão fora do comum, ele permanece calado. Mas Bartleby não dizia isso para embaraçar ou ver o seu chefe numa saia justa. Simplesmente preferia não fazê-lo, essa era a sua resolução. Que homem teria coragem de agir assim com o seu patrão? Ele era uma figura que não causava qualquer tipo de repulsa, mas sim um sentimento de compaixão. Quem seria aquele homem, que pouco comia, mal saía do escritório – quase nunca saía –, e que cumpria o seu trabalho de forma tão exemplar? Como um homem desses poderia ser, ao mesmo tempo, tão obstinado a não preferir fazer algo que o homem que pagava o seu salário lhe pedia para fazer – algo que ele, na posição de empregado, deveria fazer?

Não temos respostas para essas perguntas, mas toda a situação fica ainda mais absurda quando Bartleby se recusa a sair do escritório. Ao ser mandado embora, diz que não prefere ir embora. O advogado chega a perder a cabeça, mas logo se recompõe – pois o que sente por aquela criatura, tão sozinha e apática, era que deveria amá-lo apesar da sua aparente loucura. Como o narrador mesmo diz, se não se lembrasse do mandamento de que devemos amar ao próximo como a nós mesmos, teria cometido um assassinato. E essa é a melhor frase do livro:

A caridade muitas vezes funciona como um princípio sábio e prudente, constituindo uma poderosa salvaguarda para o seu possuidor. Os homens já cometeram assassinatos por ciúme, raiva, ódio, egoísmo e orgulho espiritual; mas jamais ouvi falar de homem que tenha cometido assassinato por caridade. (pp. 67-68)


A narrativa de Melville deixa abertura para muitas interpretações, das quais nunca chegaremos à correta. O leitor fica aturdido com tamanho absurdo, mas ao mesmo tempo pode ter compaixão e achar algo semelhante à misericórdia. O que faríamos se contratássemos um Bartleby? Teríamos a mesma paciência e bondade do narrador? Quem seria Bartleby? Qual a sua história, e o porque ele agiu do jeito que agiu? São perguntas que ficarão sem respostas, pois é isso que uma grande obra – mesmo que curta – faz. Deixar o leitor procurar as respostas que nunca encontrarão, despertando a imaginação de cada um. (Com prefácio de Jorge Luis Borges, maravilhoso).

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