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Como me tornei um leitor

A leitura é um prazer quase de outro mundo. Quando descobri o mundo dos livros, já muito tarde, eu estava prestes a ingressar no ensino médio. Lembro-me de antes disso ler alguns livros, mas ainda não era fascinado pela leitura. Ao tentar buscar onde esse desejo apareceu pela primeira vez, minha memória falha. Algumas cenas do Capitão Gancho vêm em minha mente, mas é algo totalmente desconexo. O que lembro, e claramente bem, é do livro Transilvânia, um livro que li todo e que me transportou, magicamente, para outro mundo — o da história contada pela autora, que é brasileira. Não o quis devolver para a biblioteca da escola, mas fui obrigado. Foi o primeiro contato com a literatura que eu tive, e a primeira vez que me senti completamente arrebatado para outro mundo.  via GIPHY
Como meus pais não incentivavam a leitura em casa, passou-se um longo tempo até que eu retornasse para o fantástico mundo dos livros. Dessa vez, Harry Potter. Foi aí que me tornei um leitor frenético, e como meus pa…

"Bartleby, o escrivão", de Herman Melville

Ao ler “Bartleby, o escrivão”, o leitor fica curioso em saber mais do personagem tão excêntrico. A história é narrada por um advogado, dono de um escritório, que começa a explicar como conheceu Bartleby. Primeiro apresenta seus funcionários e suas manias peculiares, pois Nippers pela parte da manhã tem um temperamento efusivo, mas a tarde fica gentil; e Turkey agia de modo semelhante, mas ao contrário: pela manhã era cortês e gentil, e à tarde era, como o próprio narrador o descreve, insolente. Mas o que o levaria a continuar empregando esses homens tão estranhos? Podemos julgar o caráter dele pelo modo que trata Bartleby. É um homem paciente, e que gosta de ver o lado positivo e lucrativo das coisas. O terceiro empregado é um menino, aparentemente normal. Mas quando conhece Bartleby, a história beira o absurdo. Não sabemos o seu nome, só que era advoga e idoso quando começou a contar quem era Bartleby.

Preferia não fazê-lo” é uma frase que será repetida várias vezes, e que fará parte do vocabulário dos homens daquele escritório. Um homem calado, quieto, que cumpria o seu ofício diligentemente, mas apático obstinado: esse era Bartleby. Ao receber ordens do seu empregador, Bartleby simplesmente dizia: prefiro não fazê-lo. Quando recebeu essa resposta desconcertante pela primeira vez, o advogado fica nervoso e sem saber o que fazer. Como assim preferia não fazê-lo? Ao ser indagado por ter uma atitude tão fora do comum, ele permanece calado. Mas Bartleby não dizia isso para embaraçar ou ver o seu chefe numa saia justa. Simplesmente preferia não fazê-lo, essa era a sua resolução. Que homem teria coragem de agir assim com o seu patrão? Ele era uma figura que não causava qualquer tipo de repulsa, mas sim um sentimento de compaixão. Quem seria aquele homem, que pouco comia, mal saía do escritório – quase nunca saía –, e que cumpria o seu trabalho de forma tão exemplar? Como um homem desses poderia ser, ao mesmo tempo, tão obstinado a não preferir fazer algo que o homem que pagava o seu salário lhe pedia para fazer – algo que ele, na posição de empregado, deveria fazer?

Não temos respostas para essas perguntas, mas toda a situação fica ainda mais absurda quando Bartleby se recusa a sair do escritório. Ao ser mandado embora, diz que não prefere ir embora. O advogado chega a perder a cabeça, mas logo se recompõe – pois o que sente por aquela criatura, tão sozinha e apática, era que deveria amá-lo apesar da sua aparente loucura. Como o narrador mesmo diz, se não se lembrasse do mandamento de que devemos amar ao próximo como a nós mesmos, teria cometido um assassinato. E essa é a melhor frase do livro:

A caridade muitas vezes funciona como um princípio sábio e prudente, constituindo uma poderosa salvaguarda para o seu possuidor. Os homens já cometeram assassinatos por ciúme, raiva, ódio, egoísmo e orgulho espiritual; mas jamais ouvi falar de homem que tenha cometido assassinato por caridade. (pp. 67-68)


A narrativa de Melville deixa abertura para muitas interpretações, das quais nunca chegaremos à correta. O leitor fica aturdido com tamanho absurdo, mas ao mesmo tempo pode ter compaixão e achar algo semelhante à misericórdia. O que faríamos se contratássemos um Bartleby? Teríamos a mesma paciência e bondade do narrador? Quem seria Bartleby? Qual a sua história, e o porque ele agiu do jeito que agiu? São perguntas que ficarão sem respostas, pois é isso que uma grande obra – mesmo que curta – faz. Deixar o leitor procurar as respostas que nunca encontrarão, despertando a imaginação de cada um. (Com prefácio de Jorge Luis Borges, maravilhoso).

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