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A alma do mundo, de Roger Scruton

Para Roger Scruton, um dos filósofos mais importante da atualidade, não podemos explicar o mundo apenas pelas ciências naturais. Em seu mais recente livro publicado pela Editora Record, Scruton argumenta contra essa tendência de querer explicar cientificamente o que não se pode ser explicado cientificamente. O indivíduo, o self, não pode ser analisado pela ciência com o propósito de explica-lo, assim como o mundo, a música, a religião, o sagrado e as relações eu-você. Nos primeiros capítulos a compreensão pode ser um pouco difícil, pois o filósofo contrapõe os argumentos científicos (como a psicologia evolutiva) que afirma que o que fazemos é determinado pelos nossos genes. Mas não tentarei explicar o que é bastante complicado para entender, por isso deixo essa tarefa para o próprio Scruton.
As nossas associações, o nosso ato de sacrificar pela família ou pátria, nossos contratos, relacionamentos e até a nossa crença faz parte de um mundo que não se pode explicar pela ciência. O nosso …

A definição do amor, de Jorge Reis-Sá


Tentar definir o amor é uma tarefa difícil, mais ainda se você vive no século XXI onde tudo o que possa imaginar é amor. Mas Jorge Reis-Sá tenta defini-lo em seu A definição do amor, publicado pela Tordesilhas. Francisco perde a mulher, mas que ainda permanece viva para conservar a vida de sua filha. A Matilde, ao contrário da mãe, precisa viver e precisa do corpo da mãe que é mantida viva por aparelhos. Francisco sabe que a sua amada está morta, e daí segue curtos capítulos de um amor mórbido, uma visão de mundo niilista, onde nada mais tem sentido o principal objetivo é a morte. Até a morte da inocente Matilde, que não tem culpa pelo acidente que tirou a vida da mãe. Ele tem um filho de poucos anos de idade, o qual passa a viver com a mãe, já que o seu mundo agora desabou e só é morte. Pensa em morrer também, mas quem cuidaria dos filhos? Pensa que deveria ter sido ele, a estar naquela máquina fria e cheia de aparelhos. Mas se fosse ele, será que Susana viveria o luto tão intensamente como ele está vivendo? É nos contada quatro histórias paralelas, sobre o amor que quatro pessoas sentiam e que as levaram a cometer o indizível. Aborto, assassinato, pedofilia e incesto. Para elas, essas eram definições do amor.

O romance foi mantido na língua original, o português de Portugal, o que pode atrapalhar um pouco a leitura. Não há muita dificuldade com os diálogos, só que algumas palavras e frases não fazem tanto sentido para os leitores brasileiros que, se forem mais curiosos, podem pesquisar o significado de cada palavra diferente. Os capítulos são curtos, e por isso o ritmo da leitura flui bem. A profundidade das reflexões que o narrador-personagem faz é surpreendente, o que poderia muito bem ser uma definição da vida e da morte, já que os pensamentos de Francisco giram em torno disso. Viver ou morrer? Por que sofremos? O que acontece quando morrermos? Por que Deus permite tais coisas? Há algum sentido na vida? As respostas do personagem, o único em evidência do começo ao fim da leitura, tirando as personagens das histórias paralelas – que de alguma maneira estão ligadas ao personagem – são sempre céticas.

Um bom livro, que faz o leitor parar para refletir sobre a vida e a morte, o que acaba nos aproximando desse tema tão assustador. Teve apenas um capítulo que achei um pouco desnecessário, não por puritanismo ou qualquer coisa do tipo, mas por quebrar a intensidade e a investigação da personagem principal sobre os dilemas da vida. Você está lendo parágrafos profundos, inquietantes, daqui a pouco vem um capítulo bastante pornográfico, com uma linguagem crua e forte, que acabou me decepcionando um pouco. Mas compreendo o autor, só achei desnecessário. O fim é um tanto trágico, mas sem muita relevância. Sabemos do que aconteceu, para onde o Francisco foi e fim, eis a definição do amor, que para mim não definiu nada, a não ser algo totalmente vago.



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