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A alma do mundo, de Roger Scruton

Para Roger Scruton, um dos filósofos mais importante da atualidade, não podemos explicar o mundo apenas pelas ciências naturais. Em seu mais recente livro publicado pela Editora Record, Scruton argumenta contra essa tendência de querer explicar cientificamente o que não se pode ser explicado cientificamente. O indivíduo, o self, não pode ser analisado pela ciência com o propósito de explica-lo, assim como o mundo, a música, a religião, o sagrado e as relações eu-você. Nos primeiros capítulos a compreensão pode ser um pouco difícil, pois o filósofo contrapõe os argumentos científicos (como a psicologia evolutiva) que afirma que o que fazemos é determinado pelos nossos genes. Mas não tentarei explicar o que é bastante complicado para entender, por isso deixo essa tarefa para o próprio Scruton.
As nossas associações, o nosso ato de sacrificar pela família ou pátria, nossos contratos, relacionamentos e até a nossa crença faz parte de um mundo que não se pode explicar pela ciência. O nosso …

Nunca mais tivemos amigos como os que tínhamos aos 11 anos de idade. Mas quem tem?


Todos tiveram amigos que um dia, infelizmente, se tornaram mais um rosto nos corredores da vida. Ao pensar em nossa infância, a nostalgia toma conta dos nossos sentimentos e tudo o que mais queremos é voltar a ser criança. Gordie Lachance é um escritor e, ao ver dois garotos de bicicleta passando pelo seu carro, lembra-se do seu melhor amigo Chris Chambers, morto a facadas em um restaurante. Olhando para o jornal que trazia essa trágica notícia, Gordie viaja ao passado e leva o público como acompanhante. Gordie, Chris, Teddy Duchamp e Vern Tessio são as crianças que um dia nós fomos. Aos onze anos, tudo o que aqueles garotos queriam era uma aventura. E não há nada mais empolgante e aventureiro do que sair em busca de um corpo. Inspirado no conto de Stephen King (The Body), Stand by Me ou Conta Comigo (tradução brasileira), o longa-metragem de Rob Reiner é um clássico atemporal. A trama se passa durante a década de 60 e todos os elementos, músicas, moda, etc. saltam aos olhos como uma lembrança de como o mundo era simples, mas não simplista. Há coisas na vida que o tempo não pode mudar e os problemas que existiam no século passado, ainda perduram em nossos dias. Rejeição dos pais, pais alcoólatras e doentes da cabeça, o sofrimento de ver um irmão morto e se sentir culpado por isso, ser estigmatizado como um delinquente pelo fato de ser membro de uma família de delinquentes. Os garotos enfrentam todos esses problemas, mas podem contar uns com os outros e por isso o título do filme é perfeito.

Quando Vern descobriu que o irmão e o amigo encontrou o corpo de um adolescente que havia desaparecido, não hesita em propor aos demais que saiam em busca desse corpo para, consequentemente, aparecer na televisão! A inocência das crianças está prestes a se perder quando, ao encontrar o corpo, os sentimentos que lhes atravessam é o de pesar. Nos dias em que vivemos muitos podem se chocar ao ver garotos de 11 anos fumando, mas não há problema algum se pegarmos o contexto em que a trama é narrada. Quem dera se o nosso único problema fosse o de que crianças estivessem fumando! Ao concordarem com Vern, os garotos não tinham em mente de que os seus medos seriam expostos e enfrentados, e ao voltar, estariam diferentes e com um pé no mundo dos adultos. Vemos que os adultos costumam ser bem piores do que pensamos e nos envergonhamos com isso. Os pais de Gordie nunca o notaram, sequer o conheceram de verdade, pois toda atenção era voltada para o filho mais velho que era jogador no time da escola. Ele era o único que conhecia Gordie, e este o tinha como seu melhor amigo. Mas o seu irmão morreu, os pais ficaram distantes e Gordie virou uma espécie de filho invisível. E é em Chris que ele pode contar, um amigo que se mostra preocupado e até mesmo transfere para si a responsabilidade de cuidar dele. Uma amizade leal e muito bonita, algo raro em nossos dias.


Chris tem problemas na escola e em sua casa. Todos o veem como um inútil, que não seria ninguém na vida. Foi acusado de roubar dinheiro na escola e sofre com essa acusação. É em Gordie que ele sabe que pode contar, o seu melhor amigo. Vern e Teddy têm histórias difíceis, cada um a sua maneira. Teddy teve a orelha queimada pelo pai e Vern também tinha seus problemas, não tão explícitos como os dos demais. Os quatro garotos têm aquela sintonia e nada melhor do que eles a interpretar os seus respectivos personagens. Há verdade em suas atuações, há sinceridade. E é isso o que deixa o filme com aquele peso emocional, pois o que afeta a um, afeta o outro. Tanto que não há como não chorar ao ver Chris desabando ao contar sobre o tão falado roubo que cometera. Teddy se desespera quando o pai é chamado de lunático. Vern entra em desespero na cena da ponte (difícil alguém não se desesperar junto com ele e também dar boas gargalhadas). Gordie, em uma das cenas mais tocante e bela, chora ao trazer a tona seus sentimentos de luto pelo irmão, o desprezo que o pai nutria por ele. E, mais uma vez, pode contar com o seu melhor amigo Chris. Nós também choramos com o Chris.

O Gordie já adulto e escritor faz aquilo o que Chris o aconselhara a fazer durante a aventura de suas vidas (quando não souber o que escrever, escreva sobre nós e a nossa aventura). Em um daqueles momentos de crise existencial, ele se pergunta se é estranho. A clássica frase “Eu sou estranho? Sim. Mas e daí? Todo mundo é estranho” é dita na cena onde os meninos caminham sobre os trilhos do trem (Stranger Things faz referência ao filme naquela cena onde os quatro amigos também caminham sobre os trilhos em busca do corpo de Will Byers). Ao dizer que iria estudar com Chris quando as aulas começassem, este diz ao amigo que ele não pode fazer isso, pois é inteligente e iria se tornar um escritor famoso. Mas a ideia de não ver mais o seu melhor amigo deixava Gordie receoso, por isso queria estudar com ele. Mas Chris é enfático e afirma que fará de tudo para que ele seja um escritor famoso, pois esse era o dom que Deus havia lhe dado e quando recebemos algo assim, não podemos desperdiçar. Numa demonstração bastante bonita, Gordie também diz que Chris não poderia desperdiçar a sua vida. De que ele era capaz promete ajuda-lo com os estudos, o que realmente aconteceu.



Escrevi uma curta opinião no Netflix afirmando que Stand by Me era um oásis no deserto chamado século XXI. E acredito que estou certo, pois muitos daqueles valores se perderam e o que vemos nos dias presentes é a banalização da amizade, que é basicamente ligada ao interesse. A lealdade e o dever de ajudar um amigo quando ele precisar já não é tão importante. Tudo é efêmero, vazio e sem cor. Esse filme nos deixa vulneráveis, sedentos por aquelas amizades da infância e uma das últimas frases do filme impulsiona-nos a pegar o telefone e ligar para aquele velho amigo que não vemos há tantos anos. É um convite para sermos mais simples, lembrar de que há coisas mais importantes do que dinheiro e poder e que amigos são verdadeiros tesouros. Gordie não via há algum tempo Chris e quando leu no jornal que o amigo tinha sido assassinado, lembrou-se de que nunca teria amigos como os que ele teve aos 11 anos de idade. Meu Deus, quem é que tem?

Há muito ainda o que escrever sobre esse filme, mas irei parar por aqui. Estou lendo atualmente “Quatro Estações”, do Stephen King. Este é um livro de contos e um deles é o “Outono da Inocência: O Corpo” que foi adaptado por Rob Reiner e virou esse clássico. Sugiro a todos os fãs do filme a lerem o livro também, pois iremos nos emocionar mais uma vez ao, agora, ler essa história que foi inspirada em um acontecimento da vida do autor: Stephen King tinha apenas 12 anos quando voltava para casa ao lado de um amigo, durante uma caminhada pelas áreas florestais do Estado norte-americano do Maine, quando encontrou o cadáver de um rapaz da região, que havia desaparecido dias antes. Como um primeiro contato real com a morte, o fato marcou a vida do futuro escritor, que na idade adulta, adaptou tal acontecimento, no formato de conto, chamado “Outono da Inocência: O Corpo” (The Body), lançando no livro As Quatro Estações (Different Seasons, 1982). Tal obra é marcada por trazer histórias mais voltadas para o drama e questões existencialistas do homem, deixando um pouco de lado temas sobrenaturais. A versão para o cinema de Conta Comigo viria quatro anos mais tarde, sob o comando do diretor Rob Reiner (Lembranças de Hollywood, 1990) e está, até hoje, como uma das melhores adaptações baseadas na obra de King feitas para a tela grande, (Boca do Inferno, por Felipe Falcão). Podemos interpretar que o Gordie é uma metáfora do Stephen King, que ao crescer e tornar-se escritor famoso, escreveu sobre o que tinha visto.

Lançado em 1986, o filme completou 30 anos em 2016. A Columbia Pictures poderia fazer um favor a todos os fãs e lançar uma edição comemorativa de 30 anos, ou 31, já que estamos em 2017. Se você quiser comprar o DVD é praticamente impossível e o Netflix retirou do seu catálogo. 

Comentários

  1. NOOSSA! O enredo parece ser bem sensível... Já estou doido pra ler. Tudo que é relacionado a nossa infância nos toca. Pelo que você escreveu o livro é maior que isso, vai além pois ainda conta com os nossos relacionamentos familiares.

    Abraços.

    BLOG: http://obaucultural.blogspot.com/

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    Respostas
    1. Ainda estou lendo o livro, não vejo a hora de chegar no conto que deu origem ao filme. Mas pelo o que ouvi em um podcast sobre o filme, o conto traz uma realidade mais pesada do que a narrada no filme. Assista o filme e também leia o livro, garanto que irá adorar o filme!

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