Pular para o conteúdo principal

As pupilas do senhor Reitor, de Júlio Dinis

As Pupilas do Senhor Reitor [Record, 368 pgs, R$32,90] é um clássico da literatura portuguesa. Como o título sugere, as personagens principais são as pupilas do S. Reitor. Margarida e Clara são irmãs, mas uma é o oposto da outra. Enquanto a mais velha, Guida, é reservada e dada às tristezas e melancolia da vida, a outra é alegre, brincalhona e de uma ingenuidade própria das raparigas (leia-se moças) de virtudes do século XIX. A trama gira em torno do já citado S. Reitor, as suas pupilas, o José das Dornas e seus filhos, Pedro e Daniel. Este último, que deveria ter sido padre, não fosse por sua paixão pela pequena Guida – os dois eram crianças – é o caos que agita toda a história. Mandado para a cidade do Porto, Daniel volta já médico para a aldeia onde nascera e passara a infância e causa agitação na pacata aldeia. Suas ideias modernas chocam o médico octogenário, João Semana, e a princípio há certa disputa entre o velho e conservador; o novo e o progressista. Pedro, irmão mais velho …

Histórias inéditas de C. S. Lewis são reunidas em novo livro lançado pela Planeta


Todos já leram ou ouviram falar em As Crônicas de Nárnia, um clássico da literatura fantástica universal, mas poucos sabem que o seu autor, C. S. Lewis, também escrevia ficção científica. Em A Torre Negra e outras histórias, lançado esse ano pela Editora Planeta, os escritos que iam para a fogueira foram reunidos e ganhou uma edição com notas explicativas sobre como esses escritos foram resgatados e quando foram escritos, e o que o autor estava querendo dizer com essas histórias. “A Torre Negra”, “O homem que nasceu cego”, “As terras fajutas”, “Anjos ministradores”, “As formas das coisas desconhecidas” e “Depois de dez anos” fazem parte do livro.

O primeiro fragmento que lemos é A Torre Negra, que seria a continuação da Trilogia Cósmica. Nele, lemos através do Lewis-personagem o que seus amigos descobriram. Através de um cronoscópio é possível ver outra realidade, ninguém sabe se no passado ou futuro, um outro mundo chamado por eles de Outrotempo. Em Outrotempo há uma torre sendo construída, a Torre Negra, e escravos, soldados e um Homem do Ferrão. Logo descobrem que em Outrotempo há duplicatas de pessoas do mundo real, e Scudamour e sua noiva têm duplicatas nesse outro mundo. É uma história que mistura horror, originalidade, fascínio e muita ciência. 

Em certo momento, em um rápido momento, o Scudamour desse mundo passa para Outrotempo e sua duplicata, que era o Homem do Ferrão, vem para o nosso mundo. Não sou muito de ler histórias de ficção científica, mas não posso negar a genialidade desse grande escritor em narrar histórias tão complexas. Seus personagens são consistentes, e o horror que consegue passar ao descrever o Homem do Ferrão é indescritível. Já as outras histórias, algumas pequenas outras mais longas, são marcantes e difere de tudo aquilo que já lemos.

Em Depois de dez anos, Lewis se arrisca, de forma bem-sucedida, em ficção histórica. Nessa história, Cabeça Amarela Menelau está dentro do cavalo de madeira que iria invadir Troia para resgatar Helena e acabar com a cidade. Mas qual a surpresa de Menelau ao avistar Helena, dez anos depois, velha e desprovida da beleza divina que tanto sonhara! E agora, o que ele iria fazer? Na nota explicativa, Roger Lancelyn Green explica que C. S. Lewis começou a escrevê-la antes de ir para a Grécia, em 1959. Ele começou a enxergar imagens em sua cabeça “a imagem de Cabeça Amarela no Cavalo de Madeira e a concretização de que ele e o resto devem ter experimentado durante quase 24 horas de claustrofobia, desconforto e perigo”. Green ainda diz que havia discutido com Lewis sobre todas as lendas de Helena e Menelau. Mas ele não conseguiu prosseguir com essa história após a morte da sua esposa Joy.

Para quem é fã do C. S. Lewis, esse livro é uma preciosidade. São fragmentos que, possivelmente, iriam ser queimados – assim como outros escritos foram queimados numa fogueira durante três dias. Walter Hooper conseguiu salvar apenas estes que fazem parte de “A Torre Negra e outras histórias”, e lamenta não poder ter salvado mais. Nós também lamentamos muito, mas ficamos contentes por Walter ter conseguido salvar esses seis. Ele também explica como achou os escritos e em qual situação. C. S. Lewis morreu em 22 de novembro de 1963 e deixou um legado que dura até hoje. Imortalizou seu nome entre os grandes da literatura universal.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Leia o conto "O Gato Preto", de Edgar Allan Poe

Não espero nem peço que acreditem nesta narrativa ao mesmo tempo estranha e despretensiosa que estou a ponto de escrever. Seria realmente doido se esperasse, neste caso em que até mesmo meus sentidos rejeitaram a própria evidência. Todavia, não sou louco e certamente não sonhei o que vou narrar. Mas amanhã morrerei e quero hoje aliviar minha alma. Meu propósito imediato é o de colocar diante do mundo, simplesmente, sucintamente e sem comentários, uma série de eventos nada mais do que domésticos. Através de suas consequências, esses acontecimentos me terrificaram, torturaram e destruíram. Entretanto, não tentarei explicá- los nem justificá-los. Para mim significaram apenas Horror, para muitos parecerão menos terríveis do que góticos ou grotescos. Mais tarde, talvez, algum intelecto surgirá para reduzir minhas fantasmagorias a lugares-comuns – alguma inteligência mais calma, mais lógica, muito menos excitável que a minha; e esta perceberá, nas circunstâncias que descrevo com espanto, na…

O livro sobre nada | Poema de Manoel de Barros

O livro sobre nada

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu que…

Ostra feliz não faz pérola, de Rubem Alves

Bem, vou começar falando o quanto eu aprendi lendo esse livro. Quando falo livro, acho que estou me referindo a mais um livro qualquer, o que não é o caso de Ostra feliz não faz pérola. Rubem Alves é simplesmente incrível, e seus textos que fazem parte do livro são maravilhosos. Claro que tem alguns ao qual eu não concorde muito, mas sobre isso não tenho nada a acrescentar, porque continua sendo maravilhoso de todo o jeito. Acho que vocês estão aí pensando que estou me referindo muito bem ao livro, e que isso cheire a alguma forma de merchan. Mas não caros leitores, quem teve o prazer de ler Rubem Alves sabe do que estou escrevendo.  Os textos falam sobre sofrimento que produz a beleza, da morte que conduz à vida, do envelhecimento que traz a juventude não vivida, do sagrado que está em todos os lugares. São doses de sabedorias que quero tomar sempre. O Rubem fala muito em suas crônicas de Nietzsche, Bach, Cecília e tantos outros ao qual ele admirava. Ostra feliz não faz pérola é uma gr…