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Múltipla Escolha, de Alejandro Zambra

O começo do livro foi bem nada com nada, me senti perdido. Qual o leitor que está acostumado com um livro, que conta diversas histórias sobre os mais variados assuntos, no formato de questões de vestibulares? Por isso o título “Múltipla Escolha”. É um chamado para sair do óbvio e forçar a mente a tirar significado de algo, primeiramente, sem sentido. Algumas páginas adiante já comecei a entrar na ideia do autor e acabei adorando o livro. Frases pequenas, com múltiplas escolhas para substituir os espaços em brancos, faz invocar logo aqueles tempos de escola. Acostumados a obedecer e ter que marcar alguma alternativa, percebermos o quanto fomos treinados e não educados, como o autor enfatiza. Aliás, é um dos assuntos que mais me marcou e proporcionou pensamentos filosóficos sobre o nosso sistema educacional, onde somos treinados a dar uma resposta correta, com medo de que não seja a correta, mesmo que outra alternativa faça mais sentido. 
Por que devemos adivinhar o que o professor/educa…

Quem pensa diferente de mim é elitista




Hoje, dizer que não gosta de determinado gênero literário, é ser elitista. Tem que aceitar tudo, achar belo, o ápice da literatura brasileira. Uma geração que cresceu hipersensibilizada, onde um “não gosto desse livro” é motivo para textos gigantes e até exclusão do círculo virtual de amizades. É uma afronta pensar diferente, expor sua opinião. “Se não gosta, fica calado”, são as resposta de seis a cada dez leitores da atualidade. Mas bem, como assim ficar calado? Esse espaço foi criado exatamente para escrever sobre os livros que li, se gostei ou não. E como vou ficar calado? Se alguém pede uma opinião sobre determinado livro é melhor mentir do que falar a verdade? É nesse ambiente hipersensível que os novos leitores estão surgindo. Alguns deles leem livros de youtubers, essa nova mania excêntrica do mercado editorial para faturar. E eles não estão errados, afinal, precisam pagar as contas todo fim de mês. 

O errado é achar esses livros o suprassumo da literatura contemporânea brasileira. Dizer que esses livros são perda de tempo, jogar dinheiro no lixo, é ser preconceituoso. Por que, santo Deus, as pessoas têm a mania de criticar tudo? Porque elas querem criticar, é o direito delas. Assim como as pessoas que me diz que sou elitista também têm o direito de expor sua opinião. Esse debate é até saudável, pois leva a uma discussão sobre o que é boa literatura e o que não é. Mas debater isso é um sinal de “elitismo”. Dizer que um livro da Kéfera é péssimo, é ser preconceituoso. Afirmar que um livro erótico é banal, fútil e insignificante é ser elitista e puritano, quando não coisa pior (na cabeça brilhante desses leitores).


Os leitores que estamos formando hoje saberão fazer a distinção entre o que é belo e o que não é? Saberão tirar dos livros lições para a sua vida? Não foram os clássicos que ajudaram a construir nossa civilização? E não são eles que ainda continuam atualíssimos e importantes para a nossa formação intelectual e moral? O que esperar de uma geração de leitores que só leem histórias temporais, fúteis e até inúteis? Será que estaremos formando futuros escritores célebres que deixarão para a próxima geração obras de vital importância, que serão atemporais, portanto clássicos? Aceitar tudo como bom e de qualidade é optar pela ignorância e covardia. Se não temos coragem de dizer algo negativo sobre um livro, com medo de ser mal interpretado pelos outros, como lidaremos com situações semelhantes no nosso dia a dia? Seremos dissimulados e falsos? Realmente vale a pena relativizar tudo para, no fim, percebermos o quanto estávamos equivocados?


É verdade que existe a alta literatura, aquela de ótima qualidade, que nos ensinam lições que colocaremos em prática na nossa vida. O dever da literatura, em minha opinião, é iluminar a escuridão da nossa alma e nos ensinar algo sobre a vida. Os livros que lemos serão responsáveis por uma pequena, mas importante, parcela do nosso caráter. E não podemos negar que a literatura ruim é a mais que vende, pois é mais fácil de ser compreendida. Não exige nada, nem aquele estado de reflexão profunda é capaz de proporcionar aos seus leitores. Autores viram best-sellers com histórias fáceis, mas depois de um ou dois anos caem no esquecimento. Quem aqui não se lembra do sucesso 50 tons de cinzaNão se apega não e etc? Eu não lembro o nome das autoras, assim como todos devem não se lembrar. Só os bons resistirão ao teste do tempo, e o tempo é o perfeito juiz. O livro mais vendido de 2016 se tornará um clássico? Só o tempo poderá responder.



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