Pular para o conteúdo principal

As pupilas do senhor Reitor, de Júlio Dinis

As Pupilas do Senhor Reitor [Record, 368 pgs, R$32,90] é um clássico da literatura portuguesa. Como o título sugere, as personagens principais são as pupilas do S. Reitor. Margarida e Clara são irmãs, mas uma é o oposto da outra. Enquanto a mais velha, Guida, é reservada e dada às tristezas e melancolia da vida, a outra é alegre, brincalhona e de uma ingenuidade própria das raparigas (leia-se moças) de virtudes do século XIX. A trama gira em torno do já citado S. Reitor, as suas pupilas, o José das Dornas e seus filhos, Pedro e Daniel. Este último, que deveria ter sido padre, não fosse por sua paixão pela pequena Guida – os dois eram crianças – é o caos que agita toda a história. Mandado para a cidade do Porto, Daniel volta já médico para a aldeia onde nascera e passara a infância e causa agitação na pacata aldeia. Suas ideias modernas chocam o médico octogenário, João Semana, e a princípio há certa disputa entre o velho e conservador; o novo e o progressista. Pedro, irmão mais velho …

Quem pensa diferente de mim é elitista




Hoje, dizer que não gosta de determinado gênero literário, é ser elitista. Tem que aceitar tudo, achar belo, o ápice da literatura brasileira. Uma geração que cresceu hipersensibilizada, onde um “não gosto desse livro” é motivo para textos gigantes e até exclusão do círculo virtual de amizades. É uma afronta pensar diferente, expor sua opinião. “Se não gosta, fica calado”, são as resposta de seis a cada dez leitores da atualidade. Mas bem, como assim ficar calado? Esse espaço foi criado exatamente para escrever sobre os livros que li, se gostei ou não. E como vou ficar calado? Se alguém pede uma opinião sobre determinado livro é melhor mentir do que falar a verdade? É nesse ambiente hipersensível que os novos leitores estão surgindo. Alguns deles leem livros de youtubers, essa nova mania excêntrica do mercado editorial para faturar. E eles não estão errados, afinal, precisam pagar as contas todo fim de mês. 

O errado é achar esses livros o suprassumo da literatura contemporânea brasileira. Dizer que esses livros são perda de tempo, jogar dinheiro no lixo, é ser preconceituoso. Por que, santo Deus, as pessoas têm a mania de criticar tudo? Porque elas querem criticar, é o direito delas. Assim como as pessoas que me diz que sou elitista também têm o direito de expor sua opinião. Esse debate é até saudável, pois leva a uma discussão sobre o que é boa literatura e o que não é. Mas debater isso é um sinal de “elitismo”. Dizer que um livro da Kéfera é péssimo, é ser preconceituoso. Afirmar que um livro erótico é banal, fútil e insignificante é ser elitista e puritano, quando não coisa pior (na cabeça brilhante desses leitores).


Os leitores que estamos formando hoje saberão fazer a distinção entre o que é belo e o que não é? Saberão tirar dos livros lições para a sua vida? Não foram os clássicos que ajudaram a construir nossa civilização? E não são eles que ainda continuam atualíssimos e importantes para a nossa formação intelectual e moral? O que esperar de uma geração de leitores que só leem histórias temporais, fúteis e até inúteis? Será que estaremos formando futuros escritores célebres que deixarão para a próxima geração obras de vital importância, que serão atemporais, portanto clássicos? Aceitar tudo como bom e de qualidade é optar pela ignorância e covardia. Se não temos coragem de dizer algo negativo sobre um livro, com medo de ser mal interpretado pelos outros, como lidaremos com situações semelhantes no nosso dia a dia? Seremos dissimulados e falsos? Realmente vale a pena relativizar tudo para, no fim, percebermos o quanto estávamos equivocados?


É verdade que existe a alta literatura, aquela de ótima qualidade, que nos ensinam lições que colocaremos em prática na nossa vida. O dever da literatura, em minha opinião, é iluminar a escuridão da nossa alma e nos ensinar algo sobre a vida. Os livros que lemos serão responsáveis por uma pequena, mas importante, parcela do nosso caráter. E não podemos negar que a literatura ruim é a mais que vende, pois é mais fácil de ser compreendida. Não exige nada, nem aquele estado de reflexão profunda é capaz de proporcionar aos seus leitores. Autores viram best-sellers com histórias fáceis, mas depois de um ou dois anos caem no esquecimento. Quem aqui não se lembra do sucesso 50 tons de cinzaNão se apega não e etc? Eu não lembro o nome das autoras, assim como todos devem não se lembrar. Só os bons resistirão ao teste do tempo, e o tempo é o perfeito juiz. O livro mais vendido de 2016 se tornará um clássico? Só o tempo poderá responder.



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Leia o conto "O Gato Preto", de Edgar Allan Poe

Não espero nem peço que acreditem nesta narrativa ao mesmo tempo estranha e despretensiosa que estou a ponto de escrever. Seria realmente doido se esperasse, neste caso em que até mesmo meus sentidos rejeitaram a própria evidência. Todavia, não sou louco e certamente não sonhei o que vou narrar. Mas amanhã morrerei e quero hoje aliviar minha alma. Meu propósito imediato é o de colocar diante do mundo, simplesmente, sucintamente e sem comentários, uma série de eventos nada mais do que domésticos. Através de suas consequências, esses acontecimentos me terrificaram, torturaram e destruíram. Entretanto, não tentarei explicá- los nem justificá-los. Para mim significaram apenas Horror, para muitos parecerão menos terríveis do que góticos ou grotescos. Mais tarde, talvez, algum intelecto surgirá para reduzir minhas fantasmagorias a lugares-comuns – alguma inteligência mais calma, mais lógica, muito menos excitável que a minha; e esta perceberá, nas circunstâncias que descrevo com espanto, na…

O livro sobre nada | Poema de Manoel de Barros

O livro sobre nada

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu que…

Ostra feliz não faz pérola, de Rubem Alves

Bem, vou começar falando o quanto eu aprendi lendo esse livro. Quando falo livro, acho que estou me referindo a mais um livro qualquer, o que não é o caso de Ostra feliz não faz pérola. Rubem Alves é simplesmente incrível, e seus textos que fazem parte do livro são maravilhosos. Claro que tem alguns ao qual eu não concorde muito, mas sobre isso não tenho nada a acrescentar, porque continua sendo maravilhoso de todo o jeito. Acho que vocês estão aí pensando que estou me referindo muito bem ao livro, e que isso cheire a alguma forma de merchan. Mas não caros leitores, quem teve o prazer de ler Rubem Alves sabe do que estou escrevendo.  Os textos falam sobre sofrimento que produz a beleza, da morte que conduz à vida, do envelhecimento que traz a juventude não vivida, do sagrado que está em todos os lugares. São doses de sabedorias que quero tomar sempre. O Rubem fala muito em suas crônicas de Nietzsche, Bach, Cecília e tantos outros ao qual ele admirava. Ostra feliz não faz pérola é uma gr…