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As pupilas do senhor Reitor, de Júlio Dinis

As Pupilas do Senhor Reitor [Record, 368 pgs, R$32,90] é um clássico da literatura portuguesa. Como o título sugere, as personagens principais são as pupilas do S. Reitor. Margarida e Clara são irmãs, mas uma é o oposto da outra. Enquanto a mais velha, Guida, é reservada e dada às tristezas e melancolia da vida, a outra é alegre, brincalhona e de uma ingenuidade própria das raparigas (leia-se moças) de virtudes do século XIX. A trama gira em torno do já citado S. Reitor, as suas pupilas, o José das Dornas e seus filhos, Pedro e Daniel. Este último, que deveria ter sido padre, não fosse por sua paixão pela pequena Guida – os dois eram crianças – é o caos que agita toda a história. Mandado para a cidade do Porto, Daniel volta já médico para a aldeia onde nascera e passara a infância e causa agitação na pacata aldeia. Suas ideias modernas chocam o médico octogenário, João Semana, e a princípio há certa disputa entre o velho e conservador; o novo e o progressista. Pedro, irmão mais velho …

O perigo de sermos totalitários


O quão totalitário somos? A resposta você poderá encontrar lendo o primeiro livro de Francisco Razzo, filósofo e palestrante. Com uma linguagem clara e bastante acessível, Razzo nos conduz em uma profunda reflexão sobre a imaginação totalitária. Como afirma mais de uma vez, o objetivo do livro não é falar sobre os regimes totalitários históricos, mas sim identificar onde começa o totalitarismo – dentro da nossa mente. Antes de se transformar em um regime político, o totalitarismo brota através da imaginação. Existem pessoas mais inclinadas a ceder a essa imaginação do que outras, uma pequena minoria, mas que pode fazer – e fez – grandes estragos. O fato é que todo o ser humano têm essa tendência, essa inclinação para ser totalitário. E o que é preciso fazer para bloquear tais pensamentos e não levar a cabo o que imaginamos? Ora, desconfiar das nossas boas intenções. Quando confiamos plenamente nos nossos ideais, e que não passa pela nossa cabeça de que possamos estar minimamente equivocados sobre esses ideais, já estamos agindo como totalitários. Ao querer que todo o mundo se adeque às minhas verdades, ou às verdades do coletivo a que pertenço, estou não só pensando mas como agindo totalitariamente.

Quantos debates inúteis, quantos insultos desnecessários, quantas tragédias reais e quantas vidas não teriam sido poupadas se limitássemos o poder de nossas crenças ao exercício pessoal de imaginá-las como limitadas, como frágeis e, em última instância, como perigosas? Porém, o orgulho ressentido declara: maus são os outros. (p. 120)

O autor aqui deixa de lado todos aqueles jargões filosóficos e técnicos – ele escreve para o leitor comum, como esse que vos escreve –, o que torna a leitura agradável, não maçante. Questões como o aborto e genocídio são observadas a partir da imaginação que as pessoas, os totalitários, formam em sua mente para justificar tais atos. Reduzir o ser humano a um simples “amontoado de células” tira a humanidade do ser que ainda está por nascer, o que acaba justificando tal prática que gera bastante polêmica, afinal, quando reduzimos uma criança, um ser humano, a um simples feto ou objeto que irá impedir a felicidade da mãe, estamos lidando com algo e não com alguém. Por isso a facilidade de defender o aborto, pois na imaginação que essas pessoas formaram, o que está dentro da barriga de uma mulher não passa apenas de algo que pode ser descartável. E ao pensar assim, querem que todos vejam o quão verdadeiros estão sendo e quem não concordar com essa dita verdade, é alguém machista ou outro rótulo qualquer.


★★
Outra imaginação totalitária é a da violência redentora, que é um meio para alcançar o reino na terra, como diria o próprio autor, a Nova Jerusalém socialista. Tanto a direita como a esquerda não está imune a esse tipo de imaginação. Mas como a esquerda, historicamente, é mais inclinada a esse tipo de imaginário, as críticas se voltam para quase todas as ideias defendidas pela nossa pacífica esquerda, que descobriu o caminho para o reino aqui na terra e que não hesitará em exterminar qualquer um que ameace a vinda desse reino, pois esse tipo de violência redentora os redime da culpa, pois o fim justifica os meios. Muitos irão odiar o livro e o autor, não por ser mal escrito, mas por se ver naquelas páginas; outros irão entender os acontecimentos políticos e sociais dos últimos anos através desse ensaio sobre a imaginação totalitária.

Não devemos confiar em nós mesmos, muito menos nos políticos que anunciam as boas novas de um mundo sem desigualdade, violência, injustiça e etc. Pois tais promessas, o de um mundo de paz, é completamente falsa, porque o problema do mundo não são abstrações, mas sim o homem. Onde a humanidade estiver, sempre haverá desigualdade, mortes, guerras, e etc. Não somos autossuficientes, perfeitos. O mal habita em nós e temos que desconfiar das nossas boas pretensões, pois elas não podem ser tão boas assim. Sempre corremos o risco de sermos totalitários, não estamos imunes. E esse é um grande perigo.


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