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Múltipla Escolha, de Alejandro Zambra

O começo do livro foi bem nada com nada, me senti perdido. Qual o leitor que está acostumado com um livro, que conta diversas histórias sobre os mais variados assuntos, no formato de questões de vestibulares? Por isso o título “Múltipla Escolha”. É um chamado para sair do óbvio e forçar a mente a tirar significado de algo, primeiramente, sem sentido. Algumas páginas adiante já comecei a entrar na ideia do autor e acabei adorando o livro. Frases pequenas, com múltiplas escolhas para substituir os espaços em brancos, faz invocar logo aqueles tempos de escola. Acostumados a obedecer e ter que marcar alguma alternativa, percebermos o quanto fomos treinados e não educados, como o autor enfatiza. Aliás, é um dos assuntos que mais me marcou e proporcionou pensamentos filosóficos sobre o nosso sistema educacional, onde somos treinados a dar uma resposta correta, com medo de que não seja a correta, mesmo que outra alternativa faça mais sentido. 
Por que devemos adivinhar o que o professor/educa…

O perigo de sermos totalitários


O quão totalitário somos? A resposta você poderá encontrar lendo o primeiro livro de Francisco Razzo, filósofo e palestrante. Com uma linguagem clara e bastante acessível, Razzo nos conduz em uma profunda reflexão sobre a imaginação totalitária. Como afirma mais de uma vez, o objetivo do livro não é falar sobre os regimes totalitários históricos, mas sim identificar onde começa o totalitarismo – dentro da nossa mente. Antes de se transformar em um regime político, o totalitarismo brota através da imaginação. Existem pessoas mais inclinadas a ceder a essa imaginação do que outras, uma pequena minoria, mas que pode fazer – e fez – grandes estragos. O fato é que todo o ser humano têm essa tendência, essa inclinação para ser totalitário. E o que é preciso fazer para bloquear tais pensamentos e não levar a cabo o que imaginamos? Ora, desconfiar das nossas boas intenções. Quando confiamos plenamente nos nossos ideais, e que não passa pela nossa cabeça de que possamos estar minimamente equivocados sobre esses ideais, já estamos agindo como totalitários. Ao querer que todo o mundo se adeque às minhas verdades, ou às verdades do coletivo a que pertenço, estou não só pensando mas como agindo totalitariamente.

Quantos debates inúteis, quantos insultos desnecessários, quantas tragédias reais e quantas vidas não teriam sido poupadas se limitássemos o poder de nossas crenças ao exercício pessoal de imaginá-las como limitadas, como frágeis e, em última instância, como perigosas? Porém, o orgulho ressentido declara: maus são os outros. (p. 120)

O autor aqui deixa de lado todos aqueles jargões filosóficos e técnicos – ele escreve para o leitor comum, como esse que vos escreve –, o que torna a leitura agradável, não maçante. Questões como o aborto e genocídio são observadas a partir da imaginação que as pessoas, os totalitários, formam em sua mente para justificar tais atos. Reduzir o ser humano a um simples “amontoado de células” tira a humanidade do ser que ainda está por nascer, o que acaba justificando tal prática que gera bastante polêmica, afinal, quando reduzimos uma criança, um ser humano, a um simples feto ou objeto que irá impedir a felicidade da mãe, estamos lidando com algo e não com alguém. Por isso a facilidade de defender o aborto, pois na imaginação que essas pessoas formaram, o que está dentro da barriga de uma mulher não passa apenas de algo que pode ser descartável. E ao pensar assim, querem que todos vejam o quão verdadeiros estão sendo e quem não concordar com essa dita verdade, é alguém machista ou outro rótulo qualquer.


★★
Outra imaginação totalitária é a da violência redentora, que é um meio para alcançar o reino na terra, como diria o próprio autor, a Nova Jerusalém socialista. Tanto a direita como a esquerda não está imune a esse tipo de imaginação. Mas como a esquerda, historicamente, é mais inclinada a esse tipo de imaginário, as críticas se voltam para quase todas as ideias defendidas pela nossa pacífica esquerda, que descobriu o caminho para o reino aqui na terra e que não hesitará em exterminar qualquer um que ameace a vinda desse reino, pois esse tipo de violência redentora os redime da culpa, pois o fim justifica os meios. Muitos irão odiar o livro e o autor, não por ser mal escrito, mas por se ver naquelas páginas; outros irão entender os acontecimentos políticos e sociais dos últimos anos através desse ensaio sobre a imaginação totalitária.

Não devemos confiar em nós mesmos, muito menos nos políticos que anunciam as boas novas de um mundo sem desigualdade, violência, injustiça e etc. Pois tais promessas, o de um mundo de paz, é completamente falsa, porque o problema do mundo não são abstrações, mas sim o homem. Onde a humanidade estiver, sempre haverá desigualdade, mortes, guerras, e etc. Não somos autossuficientes, perfeitos. O mal habita em nós e temos que desconfiar das nossas boas pretensões, pois elas não podem ser tão boas assim. Sempre corremos o risco de sermos totalitários, não estamos imunes. E esse é um grande perigo.


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