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A alma do mundo, de Roger Scruton

Para Roger Scruton, um dos filósofos mais importante da atualidade, não podemos explicar o mundo apenas pelas ciências naturais. Em seu mais recente livro publicado pela Editora Record, Scruton argumenta contra essa tendência de querer explicar cientificamente o que não se pode ser explicado cientificamente. O indivíduo, o self, não pode ser analisado pela ciência com o propósito de explica-lo, assim como o mundo, a música, a religião, o sagrado e as relações eu-você. Nos primeiros capítulos a compreensão pode ser um pouco difícil, pois o filósofo contrapõe os argumentos científicos (como a psicologia evolutiva) que afirma que o que fazemos é determinado pelos nossos genes. Mas não tentarei explicar o que é bastante complicado para entender, por isso deixo essa tarefa para o próprio Scruton.
As nossas associações, o nosso ato de sacrificar pela família ou pátria, nossos contratos, relacionamentos e até a nossa crença faz parte de um mundo que não se pode explicar pela ciência. O nosso …

O perigo de sermos totalitários


O quão totalitário somos? A resposta você poderá encontrar lendo o primeiro livro de Francisco Razzo, filósofo e palestrante. Com uma linguagem clara e bastante acessível, Razzo nos conduz em uma profunda reflexão sobre a imaginação totalitária. Como afirma mais de uma vez, o objetivo do livro não é falar sobre os regimes totalitários históricos, mas sim identificar onde começa o totalitarismo – dentro da nossa mente. Antes de se transformar em um regime político, o totalitarismo brota através da imaginação. Existem pessoas mais inclinadas a ceder a essa imaginação do que outras, uma pequena minoria, mas que pode fazer – e fez – grandes estragos. O fato é que todo o ser humano têm essa tendência, essa inclinação para ser totalitário. E o que é preciso fazer para bloquear tais pensamentos e não levar a cabo o que imaginamos? Ora, desconfiar das nossas boas intenções. Quando confiamos plenamente nos nossos ideais, e que não passa pela nossa cabeça de que possamos estar minimamente equivocados sobre esses ideais, já estamos agindo como totalitários. Ao querer que todo o mundo se adeque às minhas verdades, ou às verdades do coletivo a que pertenço, estou não só pensando mas como agindo totalitariamente.

Quantos debates inúteis, quantos insultos desnecessários, quantas tragédias reais e quantas vidas não teriam sido poupadas se limitássemos o poder de nossas crenças ao exercício pessoal de imaginá-las como limitadas, como frágeis e, em última instância, como perigosas? Porém, o orgulho ressentido declara: maus são os outros. (p. 120)

O autor aqui deixa de lado todos aqueles jargões filosóficos e técnicos – ele escreve para o leitor comum, como esse que vos escreve –, o que torna a leitura agradável, não maçante. Questões como o aborto e genocídio são observadas a partir da imaginação que as pessoas, os totalitários, formam em sua mente para justificar tais atos. Reduzir o ser humano a um simples “amontoado de células” tira a humanidade do ser que ainda está por nascer, o que acaba justificando tal prática que gera bastante polêmica, afinal, quando reduzimos uma criança, um ser humano, a um simples feto ou objeto que irá impedir a felicidade da mãe, estamos lidando com algo e não com alguém. Por isso a facilidade de defender o aborto, pois na imaginação que essas pessoas formaram, o que está dentro da barriga de uma mulher não passa apenas de algo que pode ser descartável. E ao pensar assim, querem que todos vejam o quão verdadeiros estão sendo e quem não concordar com essa dita verdade, é alguém machista ou outro rótulo qualquer.


★★
Outra imaginação totalitária é a da violência redentora, que é um meio para alcançar o reino na terra, como diria o próprio autor, a Nova Jerusalém socialista. Tanto a direita como a esquerda não está imune a esse tipo de imaginação. Mas como a esquerda, historicamente, é mais inclinada a esse tipo de imaginário, as críticas se voltam para quase todas as ideias defendidas pela nossa pacífica esquerda, que descobriu o caminho para o reino aqui na terra e que não hesitará em exterminar qualquer um que ameace a vinda desse reino, pois esse tipo de violência redentora os redime da culpa, pois o fim justifica os meios. Muitos irão odiar o livro e o autor, não por ser mal escrito, mas por se ver naquelas páginas; outros irão entender os acontecimentos políticos e sociais dos últimos anos através desse ensaio sobre a imaginação totalitária.

Não devemos confiar em nós mesmos, muito menos nos políticos que anunciam as boas novas de um mundo sem desigualdade, violência, injustiça e etc. Pois tais promessas, o de um mundo de paz, é completamente falsa, porque o problema do mundo não são abstrações, mas sim o homem. Onde a humanidade estiver, sempre haverá desigualdade, mortes, guerras, e etc. Não somos autossuficientes, perfeitos. O mal habita em nós e temos que desconfiar das nossas boas pretensões, pois elas não podem ser tão boas assim. Sempre corremos o risco de sermos totalitários, não estamos imunes. E esse é um grande perigo.


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