Pular para o conteúdo principal

As pupilas do senhor Reitor, de Júlio Dinis

As Pupilas do Senhor Reitor [Record, 368 pgs, R$32,90] é um clássico da literatura portuguesa. Como o título sugere, as personagens principais são as pupilas do S. Reitor. Margarida e Clara são irmãs, mas uma é o oposto da outra. Enquanto a mais velha, Guida, é reservada e dada às tristezas e melancolia da vida, a outra é alegre, brincalhona e de uma ingenuidade própria das raparigas (leia-se moças) de virtudes do século XIX. A trama gira em torno do já citado S. Reitor, as suas pupilas, o José das Dornas e seus filhos, Pedro e Daniel. Este último, que deveria ter sido padre, não fosse por sua paixão pela pequena Guida – os dois eram crianças – é o caos que agita toda a história. Mandado para a cidade do Porto, Daniel volta já médico para a aldeia onde nascera e passara a infância e causa agitação na pacata aldeia. Suas ideias modernas chocam o médico octogenário, João Semana, e a princípio há certa disputa entre o velho e conservador; o novo e o progressista. Pedro, irmão mais velho …

Investigação Olímpica, de Fernando Perdigão


Para solucionar uma série de crimes na Cidade Olímpica, o detetive Andrade, de um humor inteligente e ácido, com a ajuda de sua assistente, a inspetora Lurdes, seguirá as pistas deixadas pelo criminoso e se envolverá nas mais engraçadas situações. Uma leitura divertida, que abandona o politicamente correto – e por isso, talvez, alguns leitores se chocarão com esse detetive inteligente e engraçado. Andrade foi escolhido pelo secretário do governo para ser a autoridade policial olímpica, o que deixa o detetive feliz pelo reconhecimento de seu trabalho. Mas ao chegar ao seu novo local de trabalho, a Cidade Olímpica, percebe que ali a lei não tem muita importância. E como homem da lei, fará o possível – e até o impossível – para que a lei prevaleça. Lida com pessoas orgulhosas, que desejam mais e mais o poder e que não hesitarão para que o Brasil alcance o recorde de medalhas – e isso inclui envenenar os principais adversários dos atletas brasileiros. 

E é esse caso que o detetive procura esclarecer, mas que não será fácil. Uma atleta africana é picada por uma vespa e sai da competição, depois a delegação russa passa mal e um halterofilista é morto e depois uma atleta americana, episcopal, é pega no antidoping – todos esses casos estranhos despertam no detetive o sinal de alerta para algo sujo. Quem seria o responsável por todos esses “acidentes” aos principais adversários dos brasileiros? Como provar que havia uma conspiração para que o Brasil batesse o recorde de medalhas, mesmo que à custa de uma grande sabotagem? A essas perguntas Andrade tem as respostas.

Em um Brasil assolado pela criminalidade, esse papo de esporte como salvação dos jovens não passa de uma utopia para o detetive. Politicamente incorreto como é, choca as autoridades organizadoras das Olimpíadas com suas opiniões sinceras e, convenhamos, com um fundo de verdade. Em um tempo onde todos são considerados racistas, xenófobos, opressor, o detetive Andrade é tudo isso e muito mais – para o politicamente correto. Mas se o leitor não for um desses que se doem e levam tudo a sério, em uma espécie de hipersensibilidade, irá rir alto com as pérolas do detetive.

A importância disso aqui é nenhuma. A população não vai comer mais ou dormir melhor porque houve uma Olimpíada. Além do mais, o sucesso dela só vai desviar nossa juventude do estudo e do trabalho, para uma vagabundagem institucionalizada. (p. 117)
Publicado pela editora Oito e Meio, “Investigação Olímpica” é um livro para fazer o leitor se divertir e sair um pouco desse mundo chato e de um forte policiamento do pensamento. Não conhecia ainda o Fernando Perdigão, mas darei atenção aos seus livros já publicados por outras editoras. O detetive Andrade faria um barulho enorme se realmente existisse, o que lamento profundamente não ser verdade. Às vezes a ficção é mais realista do que a própria realidade.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Leia o conto "O Gato Preto", de Edgar Allan Poe

Não espero nem peço que acreditem nesta narrativa ao mesmo tempo estranha e despretensiosa que estou a ponto de escrever. Seria realmente doido se esperasse, neste caso em que até mesmo meus sentidos rejeitaram a própria evidência. Todavia, não sou louco e certamente não sonhei o que vou narrar. Mas amanhã morrerei e quero hoje aliviar minha alma. Meu propósito imediato é o de colocar diante do mundo, simplesmente, sucintamente e sem comentários, uma série de eventos nada mais do que domésticos. Através de suas consequências, esses acontecimentos me terrificaram, torturaram e destruíram. Entretanto, não tentarei explicá- los nem justificá-los. Para mim significaram apenas Horror, para muitos parecerão menos terríveis do que góticos ou grotescos. Mais tarde, talvez, algum intelecto surgirá para reduzir minhas fantasmagorias a lugares-comuns – alguma inteligência mais calma, mais lógica, muito menos excitável que a minha; e esta perceberá, nas circunstâncias que descrevo com espanto, na…

O livro sobre nada | Poema de Manoel de Barros

O livro sobre nada

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu que…

Ostra feliz não faz pérola, de Rubem Alves

Bem, vou começar falando o quanto eu aprendi lendo esse livro. Quando falo livro, acho que estou me referindo a mais um livro qualquer, o que não é o caso de Ostra feliz não faz pérola. Rubem Alves é simplesmente incrível, e seus textos que fazem parte do livro são maravilhosos. Claro que tem alguns ao qual eu não concorde muito, mas sobre isso não tenho nada a acrescentar, porque continua sendo maravilhoso de todo o jeito. Acho que vocês estão aí pensando que estou me referindo muito bem ao livro, e que isso cheire a alguma forma de merchan. Mas não caros leitores, quem teve o prazer de ler Rubem Alves sabe do que estou escrevendo.  Os textos falam sobre sofrimento que produz a beleza, da morte que conduz à vida, do envelhecimento que traz a juventude não vivida, do sagrado que está em todos os lugares. São doses de sabedorias que quero tomar sempre. O Rubem fala muito em suas crônicas de Nietzsche, Bach, Cecília e tantos outros ao qual ele admirava. Ostra feliz não faz pérola é uma gr…