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A alma do mundo, de Roger Scruton

Para Roger Scruton, um dos filósofos mais importante da atualidade, não podemos explicar o mundo apenas pelas ciências naturais. Em seu mais recente livro publicado pela Editora Record, Scruton argumenta contra essa tendência de querer explicar cientificamente o que não se pode ser explicado cientificamente. O indivíduo, o self, não pode ser analisado pela ciência com o propósito de explica-lo, assim como o mundo, a música, a religião, o sagrado e as relações eu-você. Nos primeiros capítulos a compreensão pode ser um pouco difícil, pois o filósofo contrapõe os argumentos científicos (como a psicologia evolutiva) que afirma que o que fazemos é determinado pelos nossos genes. Mas não tentarei explicar o que é bastante complicado para entender, por isso deixo essa tarefa para o próprio Scruton.
As nossas associações, o nosso ato de sacrificar pela família ou pátria, nossos contratos, relacionamentos e até a nossa crença faz parte de um mundo que não se pode explicar pela ciência. O nosso …

História de Aventura - Neil Gaiman


Este conto integra a coletânea "Alerta de Risco", que a editora Intrínseca lançou em Agosto. Em nota introdutória ao livro, o autor recorda que "História de Aventura" foi escrito para o programa de rádio "This American Life", mas acabou recusado, sendo depois publicado na revista literária "McSweeney's Quarterly".

Na minha família, "aventura" tende a ser usada para se referir a "qualquer pequeno desastre ao qual tenhamos sobrevivido" ou mesmo "qualquer quebra de rotina". Exceto por minha mãe, que ainda emprega a expressão com o sentido de "o que ela fez hoje de manhã". Entrar na parte errada do estacionamento de um supermercado e, enquanto procura o carro, iniciar uma conversa com alguém cuja irmã ela conheceu na década de 1970 seria, para minha mãe, uma aventura e tanto.
Ela está ficando velha. Não sai mais de casa com tanta frequência. Desde que papai morreu.
Na minha visita mais recente, fizemos uma limpa de alguns dos pertences dele. Mamãe me deu uma caixa de couro preto com abotoaduras desgastadas e me convidou para escolher como recordação qualquer um dos velhos suéteres e cardigãs de papai. Eu amava meu pai, mas não consigo me imaginar usando um de seus suéteres. Ele sempre foi muito maior que eu, a vida toda. Nada dele serviria em mim.
– O que é aquilo? – perguntei à minha mãe.
– Ah. É algo da época do exército, de quando seu pai voltou da Alemanha.
A figura tinha sido esculpida numa pedra vermelha do tamanho do meu polegar, cheia de pintas. Era uma pessoa, um herói ou talvez um deus, com uma expressão de dor no rosto entalhado grosseiramente.
– Não parece muito alemão – falei.
– Não é, querido. Acho que veio de"¦ Bem, hoje em dia é o Cazaquistão. Não sei ao certo qual era o nome naquela época.
– O que papai estava fazendo pelo exército no Cazaquistão?
Teria sido mais ou menos na década de 1950. Meu pai chefiava o clube dos oficiais na Alemanha durante o período em que serviu e, em nenhuma das histórias que ele contava no jantar sobre os tempos de exército no pós-guerra, jamais relatou nenhum feito digno de nota, nada além de pegar um caminhão emprestado sem permissão ou aceitar uma garrafa de uísque que talvez não tenha sido endereçada a ele.
– Oh! – exclamou, com a expressão de quem falou demais. – Nada, querido. Ele não gostava de tocar no assunto.
Coloquei a estatueta junto às abotoaduras e à pequena pilha de fotos em preto e branco, curvadas pelo tempo, que decidira levar para casa e digitalizar.
Dormi no quarto de hóspedes no final do corredor, na cama estreita.
Na manhã seguinte, fui até o cômodo que tinha sido o escritório do meu pai, para dar uma última olhada. Então, caminhei pelo corredor até a sala, onde mamãe já tinha posto o café da manhã.
– O que houve com aquela estatuazinha de pedra?
– Guardei, querido.
Os lábios dela estavam retesados.
– Por quê?
– Bem, seu pai sempre dizia que não deveria ter trazido aquilo.
– Por que não?
Ela despejou o chá com a mesma chaleira de porcelana que a vi usar por toda a minha vida.
– Havia gente à procura da pedra. No fim, a aeronave deles explodiu. No vale. Por causa daquelas coisas voadoras batendo contra as hélices.
– Coisas voadoras?
Ela pensou por um momento.
– Pterodátilos, querido. Foi o que seu pai contou. É claro, ele disse que as pessoas na aeronave mereceram tudo o que aconteceu a elas, depois do que fizeram aos astecas em 1942.
– Mãe, os astecas morreram séculos atrás. Muito antes de 1942.
– Ah, sim, querido. Os da América. Não os daquele vale. Esses outros, os que estavam na aeronave, bem, seu pai disse que não eram pessoas de verdade. Mas se pareciam com pessoas, embora viessem de um lugar com um nome bem engraçado. Como era mesmo? – Ela pensou um pouco. – É melhor beber seu chá, querido.
– Sim. Não. Espere aí. Como eram essas pessoas? E os pterodátilos estão extintos há cinquenta milhões de anos.
– Se você diz, querido. Seu pai nunca falava nisso. – Ela fez uma pausa. – Havia uma garota. Isso foi no mínimo cinco anos antes do seu pai e eu começarmos a namorar. Ele era muito bonito na época. Bem, sempre o achei bonitão. Ele a conheceu na Alemanha. Ela estava se escondendo de pessoas que procuravam a estatueta. Era a rainha ou princesa deles, ou xamã, ou coisa assim. Eles a sequestraram, e, como ele estava junto, o levaram também. Não eram alienígenas, na verdade. Pareciam mais aquela gente que vira lobo na televisão"¦
– Lobisomens?
– Imagino que sim, querido. – Ela parecia em dúvida. – A estátua era um oráculo, e quem a possuísse, mesmo que momentaneamente, era considerado o governante dessa gente. – Ela mexeu o chá. – O que seu pai disse mesmo? A entrada do vale era por uma pequena trilha a pé e, depois da garota alemã, bem, ela não era alemã, é claro, mas eles explodiram a trilha usando uma"¦ máquina de raios, para interromper o caminho para o outro mundo. Desse modo, seu pai teve que encontrar o caminho de casa sozinho. Teria se metido em muita encrenca, mas o homem que escapou com ele, Barry Anscome, era do setor de espionagem do exército e"¦
– Espere aí. Barry Anscome? Aquele que vinha passar o fim de semana aqui quando eu era criança? Sempre me dava uma moedinha de cinquenta pence. Fazia péssimos truques com moedas. Roncava. Tinha um bigode bobo.
– Sim, querido. Barry. Foi para a América do Sul quando se aposentou. Equador, acho. Foi assim que eles se conheceram. Quando seu pai estava no exército.
Meu pai dissera certa vez que mamãe nunca tinha gostado de Barry Anscome, que era muito chegado ao meu pai.
– E? – insisti para que continuasse.
Ela serviu outra xícara de chá.
– Faz tanto tempo, querido. Seu pai me falou sobre isso só uma vez. Mas não me contou a história assim que a gente se conheceu. Só quando já estávamos casados. Disse que eu precisava saber. Estávamos na lua de mel. Fomos a um pequeno vilarejo de pescadores espanhóis. Hoje em dia é uma grande cidade turística, mas, na época, ninguém conhecia o lugar. Como era o nome? Ah, sim. Torremolinos.
– Posso ver de novo? A estátua?
– Não, querido.
– Já a guardou?
– Joguei fora – disse minha mãe, fria. Então, como se quisesse me impedir de revirar o lixo, acrescentou: – Os lixeiros passaram de manhã.
Não falamos mais nada.
Ela bebericou seu chá.
– Você nunca vai adivinhar quem eu encontrei na semana passada. Sua antiga professora, a sra. Brooks, lembra? Esbarrei com ela no supermercado. Saímos para tomar café na livraria porque eu queria conversar a respeito da possibilidade de entrar para a comissão organizadora da feira da cidade. Mas a livraria estava fechada. Em vez disso, fomos na casa de chá. Foi uma aventura e tanto.
NEIL GAIMAN, 55, escritor britânico, autor de livros e romances gráficos, como "Sandman"
AUGUSTO CALIL, 35, é jornalista e tradutor.
JULIA DEBASSE, 31, é artista plástica.

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