Belo, trágico, chocante e real, "Os abraços perdidos" é um romance curto mas intenso


Pedro teve um pai que deixou marcas profundas em sua alma. A relação de pai e filho nunca foi normal para ele. Antônio Carlos era um homem bruto, egoísta e sem responsabilidade alguma. Tratava o filho como se fosse um colega de bar. Bar. O pai de Pedro bebia muito e a cada dia que se passava, aprofundava-se mais e mais no álcool. Mais um adjetivo negativo para Antônio Carlos: bêbado. Os capítulos são alternados em primeira e terceira pessoa, um relembrando o passado e o outro narrando o presente. A leitura é rápida e prazerosa, faze-nos sentir um sentimento de ira contra o pai sem noção e de compaixão pelo filho traumatizado. Perguntamo-nos: que pai é esse? Pedro nunca teve o amor do pai, e Antônio Carlos nunca teve o amor do filho.
Pensou no quanto mudou nesses anos todos. Era outro. Já havia sido vários outros. Uma vez ingênuo demais, outra vez inconsequente demais, medroso demais, apaixonado demais, iludido demais, bicho-grilo demais. Por vezes, tentou se autocorrigir, mas não é tão fácil assim.

Já no presente, Pedro está namorando e escuta de Aline algo que o deixa apavorado: ela está esperando um bebê. Ele surta, pergunta se ela estava brincando ou se queria ferrar com a vida dele. Ela, abismada, com toda a razão, sente-se decepcionada ao ver o Pedro que ainda não conhecia. É o resultado de esconder um passado doloroso para quem você ama, acaba se doando pela metade e quando uma situação como essa acontece, o outro fica perplexo: não acredito que você está dizendo isso. Ele tenta convencer a namorada a abortar. Tirar a vida de um ser que ainda nem veio a existir. De um filho que não teria o seu amor e nem o seu abraço. Coisa que Pedro também nunca teve por parte do pai. A história se repetia e o título do livro se explica aí mesmo.

Sem perceber, Pedro é o Antônio Carlos com outra personalidade e de outra época. Não é viciado, mas é insensível. Assim como o pai brigava com as mulheres que se relacionava, agora o filho estava brigando com a namorada por um filho que ainda não nascera. O passado deixou marcas em Pedro e seu ódio pelo pai acabou transformando-o, em um grau inferior, um pai sem qualquer sentimento pelo filho.


Belo, trágico, chocante e real. Quem nunca conheceu alguém que não se dá bem com o pai? Quem nunca ouviu histórias parecidas com a de Pedro? “Os abraços perdidos” é um daqueles romances que te pega de jeito e te faz repensar em algumas coisas. Um livro curto mas intenso. 

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