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A alma do mundo, de Roger Scruton

Para Roger Scruton, um dos filósofos mais importante da atualidade, não podemos explicar o mundo apenas pelas ciências naturais. Em seu mais recente livro publicado pela Editora Record, Scruton argumenta contra essa tendência de querer explicar cientificamente o que não se pode ser explicado cientificamente. O indivíduo, o self, não pode ser analisado pela ciência com o propósito de explica-lo, assim como o mundo, a música, a religião, o sagrado e as relações eu-você. Nos primeiros capítulos a compreensão pode ser um pouco difícil, pois o filósofo contrapõe os argumentos científicos (como a psicologia evolutiva) que afirma que o que fazemos é determinado pelos nossos genes. Mas não tentarei explicar o que é bastante complicado para entender, por isso deixo essa tarefa para o próprio Scruton.
As nossas associações, o nosso ato de sacrificar pela família ou pátria, nossos contratos, relacionamentos e até a nossa crença faz parte de um mundo que não se pode explicar pela ciência. O nosso …

A morte de Deus na cultura


Com um título inquietante, Terry Eagleton faz um mergulho na História e apresenta os argumentos que levaram a cultura dispensar Deus do seu meio, ou como sugere o título, assassiná-lo. Da época em que o Iluminismo estava ganhando espaço nas mentes dos intelectuais e na sociedade até aos tempos modernos e pós-moderno, o conteúdo desse livro é bastante complexo. Esmiuçando, com tamanha desenvoltura, o pensamento dos filósofos, intelectuais, religiosos e até da massa, Eagleton tenta compreender quando começou esse assassinato do Divino e deixa claro que o Iluminismo, a princípio, não tinha este objetivo. Citando Hume, Kant, Marx, Schiller, Kierkegaard entre tantos outros, este pequeno livro é bastante rico se tratando em sua bibliografia.


O tema é intrigante e desperta o interesse nas pessoas que são interessadas na cultura e ficam bastante preocupadas com o sumiço de Deus nas obras de arte, músicas, livros, enfim, do meio cultural. Vários substitutos foram colocados no lugar de Deus, mas sempre por tempo curto. A figura do Divino ficava sempre presente, mesmo quando não havia relação direta com Ele. A Razão era um conceito adorado e compreendido pela elite intelectual, mas não se fazia compreender para a gente comum. 

Fazia-se, então, necessária criar mitos ou símbolos que se associassem à Razão, tornando-a como uma substituta da religião e seus rituais e sacrifícios. O Deus estava por demais presente no meio do povo comum, mesmo sendo um Espírito Invisível. Matá-lo, simbolicamente, levaria um longo tempo e lemos que esse processo durou séculos até, por fim, eliminá-lo. Mas o autor não foca, diretamente, em Deus. O livro não é religioso, isso não é. É mais um estudo sobre como mentes brilhantes e inquietas pensavam sobre o futuro e defendiam suas ideologias e o que impedia o progresso raiar no horizonte como uma verdade real e possível. 

"À medida que se esvai o poder da religião, suas diferentes funções são redistribuídas como precioso legado para os que aspiram a se tornar seus herdeiros. O racionalismo científico se apropria de suas certezas doutrinárias, enquanto a política radical herda sua missão de transformar a face da Terra. A cultura, no sentido estético, preserva algo da sua profundidade espiritual. Na verdade, as ideias estéticas (criação, inspiração, unidade, autonomia, símbolo, epifania e assim por diante) são em sua maioria fragmentos deslocados de teologia." (p.161)

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