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A alma do mundo, de Roger Scruton

Para Roger Scruton, um dos filósofos mais importante da atualidade, não podemos explicar o mundo apenas pelas ciências naturais. Em seu mais recente livro publicado pela Editora Record, Scruton argumenta contra essa tendência de querer explicar cientificamente o que não se pode ser explicado cientificamente. O indivíduo, o self, não pode ser analisado pela ciência com o propósito de explica-lo, assim como o mundo, a música, a religião, o sagrado e as relações eu-você. Nos primeiros capítulos a compreensão pode ser um pouco difícil, pois o filósofo contrapõe os argumentos científicos (como a psicologia evolutiva) que afirma que o que fazemos é determinado pelos nossos genes. Mas não tentarei explicar o que é bastante complicado para entender, por isso deixo essa tarefa para o próprio Scruton.
As nossas associações, o nosso ato de sacrificar pela família ou pátria, nossos contratos, relacionamentos e até a nossa crença faz parte de um mundo que não se pode explicar pela ciência. O nosso …

Sobre a escrita - Clarice Lispector




Meu Deus do céu, não tenho nada a dizer. O som de minha máquina é macio.

Que é que eu posso escrever? Como recomeçar a anotar frases? A palavra é o meu meio de comunicação. Eu só poderia amá-la. Eu jogo com elas como se lançam dados: acaso e fatalidade. A palavra é tão forte que atravessa a barreira do som. Cada palavra é uma idéia. Cada palavra materializa o espírito. Quanto mais palavras eu conheço, mais sou capaz de pensar o meu sentimento.

Devemos modelar nossas palavras até se tornarem o mais fino invólucro dos nossos pensamentos. Sempre achei que o traço de um escultor é identificável por um extrema simplicidade de linhas. Todas as palavras que digo - é por esconderem outras palavras.

Qual é mesmo  a palavra secreta? Não sei é porque a ouso? Não sei porque não ouso dizê-la? Sinto que existe uma palavra, talvez unicamente uma, que não pode e não deve ser pronunciada. Parece-me que todo o resto não é proibido. Mas acontece que eu quero é exatamente me unir a essa palavra proibida. Ou será? Se eu encontrar essa palavra, só a direi em boca fechada, para mim mesma, senão corro o risco de virar alma perdida por toda a eternidade. Os que inventaram o Velho Testamento sabiam que existia uma fruta proibida. As palavras é que me impedem de dizer a verdade.

Simplesmente não há palavras.

O que não sei dizer é mais importante do que o que eu digo.  Acho que o som da música é imprescindível para o ser humano e que o uso da palavra falada e escrita são como a música, duas coisas das mais altas que nos elevam do reino dos macacos, do reino animal, e mineral e vegetal também.  Sim, mas é a sorte às vezes.

Sempre quis atingir através da palavra alguma coisa que fosse  ao mesmo tempo sem moeda e que fosse e transmitisse tranqüilidade ou simplesmente a verdade mais profunda existente no ser humano e nas coisas. Cada vez mais eu escrevo com menos palavras. Meu livro melhor acontecerá quando eu de todo não escrever. Eu tenho uma falta de assunto essencial. Todo homem tem sina obscura de pensamento que pode ser o de um crepúsculo e pode ser uma aurora.

Simplesmente as palavras do homem.

Texto extraído do site "Sobrado".

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