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A alma do mundo, de Roger Scruton

Para Roger Scruton, um dos filósofos mais importante da atualidade, não podemos explicar o mundo apenas pelas ciências naturais. Em seu mais recente livro publicado pela Editora Record, Scruton argumenta contra essa tendência de querer explicar cientificamente o que não se pode ser explicado cientificamente. O indivíduo, o self, não pode ser analisado pela ciência com o propósito de explica-lo, assim como o mundo, a música, a religião, o sagrado e as relações eu-você. Nos primeiros capítulos a compreensão pode ser um pouco difícil, pois o filósofo contrapõe os argumentos científicos (como a psicologia evolutiva) que afirma que o que fazemos é determinado pelos nossos genes. Mas não tentarei explicar o que é bastante complicado para entender, por isso deixo essa tarefa para o próprio Scruton.
As nossas associações, o nosso ato de sacrificar pela família ou pátria, nossos contratos, relacionamentos e até a nossa crença faz parte de um mundo que não se pode explicar pela ciência. O nosso …

A perda da memória e as desconfianças no ser humano em "MemoRandom", de Anders de La Motte



“Todo mundo mente. Não confie em ninguém.”


David Sarac é um homem que perdeu a memória em um acidente de carro. O pouco que sabemos sobre o personagem é aquilo que o narrador vai contando ao longo da narrativa. Aqui, a perda da memória seria uma benção ou maldição? Para Sarac, talvez uma benção. Aos poucos ele vai recuperando a memória e se lembrando do que ele é e o que faz. Trabalha para a polícia recrutando pessoas para serem informantes. Entregar grupos criminosos, dá informações sobre algo relacionado ao tráfico de drogas, entregar nomes de homens poderosos da cena do crime na Suécia. Ao sofrer uma batida em um túnel e quase morrer, Sarac começa uma jornada em busca do seu verdadeiro eu e de uma informação que está deixando todo mundo com muita curiosidade... Jano.

As histórias de Natalie, Atif e Jesper são paralelas à de Sarac e, como em um quebra-cabeça, elas vão se juntando até estarem relacionados uns com os outros. La Monte narra essas histórias sem perder o ritmo veloz que todo bom thriller pede e, de forma bem engenhosa, como numa série de TV, vai costurando a vida dessas quatro personagens até atingir o ápice, aonde todos chega ao mesmo lugar. Menos uma. Para saber, só lendo o livro.

Viver sem memória é ruim. Viver sem saber em quem confiar é péssimo. De repente, aquele que queria lhe ajudar acaba mentindo para você ou até mesmo se aproveitando da situação para manipulá-lo, com o objetivo de se auto beneficiar. Amigos? Será realmente que temos amigos? No mundo fictício de La Monte, os amigos estarão sempre em suspeita. Os policiais? Também. O Ministro da Justiça? Idem. La Monte constrói um mundo onde o egoísmo é a prioridade. Se promover, ganhar dinheiro, ter a ficha limpa... Quem mais deveria se importar com os outros? Mas ainda assim, nesse mundo de desconfiança, ainda há traços de afeição e sacrifícios. Sacrifícios por aqueles que não conhecemos direito. E uma das personagens se pergunta exatamente isso. Por que estaria fazendo isso – arriscando a própria vida por um estranho? Sempre há luz, nem que seja uma pequena chama, em meio à escuridão.


Escuridão essa que esconde os piores sentimentos e ações de um ser humano. Poder a qualquer preço. Dinheiro acima de tudo. Eu acima de todos. Afinal, quem irá salvar a mim senão eu mesmo? Mas nada é previsível. E são gestos inesperados de pessoas que se mostraram tão insensíveis que deixa as personagens com aquela culpa dentro de si, pois sempre esperariam o pior dos outros e não o melhor. Sarac se vê em um labirinto onde procura a si mesmo e aqueles que deveriam ser os seus amigos, mas só encontra ilusão. A cada nova memória descoberta, a desconfiança aumenta. Não confie em ninguém. Mas Sarac acaba confiando em uma mulher estranha e que também não era confiável. Natalie, Atif e Sarac talvez precisassem se cruzar para se encontrar. Ou não, cada um vai entender conforme aquilo que achar o mais adequado. Essa foi a minha leitura e a minha compreensão. “Memorandom” talvez seja isso, tentar trazer à memória as coisas boas e descartar as más. Tentar ressuscitar o homem bom e enterrar o mau. Tentar confiar nas pessoas ao invés de desconfiar de todos. Porque uma vida de desconfiança é uma vida solitária que estará sempre em um labirinto tentando encontrar algo que dê sentido para isso tudo aqui. 

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