Pular para o conteúdo principal

Os invernos da ilha


O que esperar de uma ilha isolada no meio do Pacífico? Para o Dr. Florian, a redenção. Após perder a esposa, ele sente culpa e assim parte para a Ilha de Sant’Anna Afuera para se tornar monge – ao menos era essa a sua intenção. Mas a ilha lhe traz mais dúvidas que certezas e, ao conhecer o professor Rousseau, é envolvido em uma aventura iminente que trará surpresas e tragédias. Florian, que mais parece um canalha do que um homem com um chamado para Algo maior, é aquele personagem que você nem ama, nem odeia. 

Junto com o professor Rousseau – ateu, egoísta e não menos complexo – e a bela Cecília, uma mulher que desperta nos homens aquele sentimento de deslumbramento, formam um trio – triângulo amoroso, se assim posso dizer – que nos conduz por uma aventura empolgante, com direito à caça ao tesouro e acontecimentos dignos de um filme. Diria que a ilha também é uma protagonista, pois ela está lá, com o céu nublado e as chuvas grossas típicas do inverno, além do mar cor de chumbo e ondas devastadoras. 

Ela que deveria acolher um homem que está a procura da paz e do Transcendente, acaba por envolvê-lo em situações embaraçosas e humilhantes – como alguém que, contrariando sua vontade, se voluntaria a salvar uma garota que está afogando-se e é salvo pela mesma? Florian é um homem inquieto, mas também covarde. Mas há algo que faz o leitor gostar dele, mesmo com esses defeitos. E quem não tem defeitos?

Os diálogos sobre as questões espirituais são um bálsamo para a alma que está passando pelos invernos da ilha. Dom Clemente e Dom Fernando são homens de fé nos quais gostaríamos de ter um minuto a sós para conversarmos sobre aquilo que nos aflige – independente de confissão de fé ou religião. São homens sábios que deixa a todos boquiabertos, inclusive o Dr. Florian. São esses diálogos e a figura desses dois personagens que deixa acessa a esperança da primavera chegar. E o leitor é brindado com outra história dentro da história, um paralelo do passado com o futuro que acabam se encontrando na busca do tesouro que o corsário holandês Olivier van Noort escondeu na ilha, e é esse o segredo e a mola que fazem o trio Florian-Rousseau-Cecília planejar essa aventura pela ilha. Mas onde estaria esse tesouro? Como chegar lá? E o poema de Olivier van Noort registrado em seu diário que dá a pista:

A glória que brilha do Bom Jesus,
onde começa o céu ao dom do inverno,
o Olho tem a tarde às chamas, o eterno
assim faz convertida a noite em luz.

E revelado o caminho da Cruz,
venha-me a noite, o véu negro me queira,
ali ficará sempre e derradeira
a glória que brilha do Bom Jesus.

A busca pelo tesouro perdido é surpreendente e com eventos inesperados, como uma velha querendo sacrificar o menino Jorge Rulfo. Os Invernos da Ilha é uma aventura deliciosa e empolgante. As personagens são tão verossímeis que começamos a imaginar se aquelas pessoas não existem na vida real. E a ilha, ah a ilha! Ela foi durante esse tempo de leitura o meu refúgio, um escape. Minha vontade era a de andar por aquelas trilhas, ver aquela cruz, aventurar-me junto com Florian, Rousseau, Cecília, Vivi e Jorge. Mas, de qualquer maneira, eu estava ali com eles. Sim, o leitor estará ali com eles apreensivos e na expectativa de encontrar a glória que brilha do Bom Jesus.

Os invernos da ilha fazem isso. Esse mar imenso arrebentando, carrancudo, e nós aqui, tão pequenos. Mas depois passa. Logo chega a primavera e tudo passa, o senhor vai ver. Passa logo. (pg. 242)


Tudo passa. E o que eu não daria para ler mais algumas páginas?

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Leia o conto "O Gato Preto", de Edgar Allan Poe

Não espero nem peço que acreditem nesta narrativa ao mesmo tempo estranha e despretensiosa que estou a ponto de escrever. Seria realmente doido se esperasse, neste caso em que até mesmo meus sentidos rejeitaram a própria evidência. Todavia, não sou louco e certamente não sonhei o que vou narrar. Mas amanhã morrerei e quero hoje aliviar minha alma. Meu propósito imediato é o de colocar diante do mundo, simplesmente, sucintamente e sem comentários, uma série de eventos nada mais do que domésticos. Através de suas consequências, esses acontecimentos me terrificaram, torturaram e destruíram. Entretanto, não tentarei explicá- los nem justificá-los. Para mim significaram apenas Horror, para muitos parecerão menos terríveis do que góticos ou grotescos. Mais tarde, talvez, algum intelecto surgirá para reduzir minhas fantasmagorias a lugares-comuns – alguma inteligência mais calma, mais lógica, muito menos excitável que a minha; e esta perceberá, nas circunstâncias que descrevo com espanto, na…

O livro sobre nada | Poema de Manoel de Barros

O livro sobre nada

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu que…

Contra o aborto, de Francisco Razzo

A discussão sobre o aborto é bastante polêmica. Aqueles que são a favor da prática abortiva dão inúmeros argumentos, a princípio técnicos, para convencer o público de que o aborto é, na verdade, importantíssimo para garantir a liberdade das mulheres. Mas o que nem todos sabem é que estes argumentos são apenas retóricos. Os defensores do aborto apelam para o emocional das pessoas para que a verdade não seja esclarecida. Pois quando se trata de um assunto tão complexo como este, a busca pela verdade objetiva é essencial.
Também são retóricos alguns dos argumentos daqueles que são contrários ao aborto. Então o nosso debate público se restringe ao uso da retórica e quem for o mais convincente em seus argumentos, não importa se é verdadeiro ou não, vence. Ou seja, não se trata a questão objetivamente e tendo em vista o que é verdade e o que não é.
A postura defendida pelo filósofo Francisco Razzo em seu livro “Contra o aborto” (Record, 266 pgs, R$39,90) é a filosófica. Para Razzo, os argumen…