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A alma do mundo, de Roger Scruton

Para Roger Scruton, um dos filósofos mais importante da atualidade, não podemos explicar o mundo apenas pelas ciências naturais. Em seu mais recente livro publicado pela Editora Record, Scruton argumenta contra essa tendência de querer explicar cientificamente o que não se pode ser explicado cientificamente. O indivíduo, o self, não pode ser analisado pela ciência com o propósito de explica-lo, assim como o mundo, a música, a religião, o sagrado e as relações eu-você. Nos primeiros capítulos a compreensão pode ser um pouco difícil, pois o filósofo contrapõe os argumentos científicos (como a psicologia evolutiva) que afirma que o que fazemos é determinado pelos nossos genes. Mas não tentarei explicar o que é bastante complicado para entender, por isso deixo essa tarefa para o próprio Scruton.
As nossas associações, o nosso ato de sacrificar pela família ou pátria, nossos contratos, relacionamentos e até a nossa crença faz parte de um mundo que não se pode explicar pela ciência. O nosso …

Capote: Contos da adolescência e juventude


Truman Capote é um dos autores mais prestigiados da segunda metade do séc. XX, e um dos mais admirados do nosso presente século. Com uma escrita forte, viva e às vezes perturbadora, Capote escreve com maestria — muito embora esses primeiros contos não esteja na altura dos outros que escreveu já quando maduro. Foi através dele que comecei a amar esse gênero um pouco esquecido, um tanto menosprezado. 


Em “20 Contos de Truman Capote”, deparei-me com histórias incríveis, como o premiado “Miriam”, e histórias pungentes, como “Memória de Natal”, que me fez ir às lágrimas. Truman Capote, o autor do romance-reportagem “A Sangue Frio”, sobre o assassinato brutal de uma família no interior do estado do Kansas, já mostrava seu talento nato para a escrita desde pequeno. Conta que se dedicava à escrita desde os onze anos e se autodisciplinava diariamente, escrevendo mais de uma hora por dia.


“Comecei a escrever de verdade mesmo por volta dos onze anos, [...] E digo de verdade no sentido de que, se outras crianças voltam para casa para praticar violino, piano ou qualquer outra coisa, eu costumava voltar para casa da escola diariamente e escrever durante cerca de três horas. Era uma obsessão.”

Os primeiros contos do autor foram escritos entre a adolescência e juventude, e estão depositados nos arquivos Truman Capote da Biblioteca Pública de Nova York. Nos 14 contos reunidos nesse livro, lançado pela José Olympio, podemos notar os primeiros traços de sua literatura que se consagraria mais tarde, e o faria um mestre da ficção — e da realidade, também. Com personagens marginalizados, Truman deixa claro sua empatia pelos outros. Uma mulher negra que deixa a família no Sul para vir tentar a vida como cozinheira em Nova York, ao mesmo passo que se sente deslumbrada pelas cores da cidade agitada, sente-se desajustada e procura se adequar ao novo mundo no qual ela estava se inserindo. Ou os dois personagens do primeiro conto, “Despedida”, que apesar da desconfiança que sentiam um pelo outro (um era esperto e já vivia um bom tempo na marginalidade, o outro, um filho que decide sair de casa para tentar a vida de forma ilícita), demonstram ao final que suas desconfianças eram verdadeiras, mas que, se surpreendem-se pelo afeto que um nutria pelo outro, mesmo não querendo deixar claro isso. 


Capote também escreve sobre os piores sentimentos que um ser humano pode ter, como a inveja e o desejo de matar o outro. Já outros contos mostram uma escrita mais leve, enaltecendo o amor da garota pelo garoto que iria procura-la, e do amor puro de uma criança por um cachorro e seu dono Jamie, que no mais singelo e humilde gesto, que toda criança é capaz de ter, um manda uma caixa cheia de gibis para o dono do terrier de pelo áspero, que pelo que dá a entender, é uma criança muito doente e que não pode passear com o seu cãozinho, por isso quem faz essa tarefa é a sua mãe. O desfecho dessa história é bem triste e emocionante.

Seus personagens são fictícios, mas poderiam ser reais. Capote observava as coisas com muita precisão e isso se traduz na sua ficção. É um grande contador de histórias, observador da vida e um eterno, se assim posso dizer, porta voz das pessoas que vivem à margem da sociedade, esquecidos por muitos. Isso talvez seja porque ele mesmo, em certo momento de sua vida, foi mais um esquecido por aqueles que o cercavam.

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