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Múltipla Escolha, de Alejandro Zambra

O começo do livro foi bem nada com nada, me senti perdido. Qual o leitor que está acostumado com um livro, que conta diversas histórias sobre os mais variados assuntos, no formato de questões de vestibulares? Por isso o título “Múltipla Escolha”. É um chamado para sair do óbvio e forçar a mente a tirar significado de algo, primeiramente, sem sentido. Algumas páginas adiante já comecei a entrar na ideia do autor e acabei adorando o livro. Frases pequenas, com múltiplas escolhas para substituir os espaços em brancos, faz invocar logo aqueles tempos de escola. Acostumados a obedecer e ter que marcar alguma alternativa, percebermos o quanto fomos treinados e não educados, como o autor enfatiza. Aliás, é um dos assuntos que mais me marcou e proporcionou pensamentos filosóficos sobre o nosso sistema educacional, onde somos treinados a dar uma resposta correta, com medo de que não seja a correta, mesmo que outra alternativa faça mais sentido. 
Por que devemos adivinhar o que o professor/educa…

Rumah, de Bruno Flores

Bruno Flores
A busca por um futuro melhor e por uma terra mais próspera é um dos temas desse romance. O passado, presente e futuro alternam-se em uma narrativa riquíssima em detalhes, o que exige muita atenção do leitor. O autor, ao optar por estruturar a trama de forma não linear, passa a mensagem que sempre podemos aprender com o passado para não cometermos os mesmos erros. E é por considerar o passado e os mortos que os Kitaran do presente não optam por repetir antigos equívocos e alimentar a rivalidade entre clãs, o que permite que eles continuem existindo, rumo a um futuro idealizado e que traga a esperança de dias melhores. Os ancestrais de Tesé, os que fundaram a sociedade Kitaran, caíram no erro de juntar religião e poder político. Acontece que nos primórdios da sociedade Kitaran, o povo era representado por um Chefe Supremo, sendo este sempre de um clã nobre e que se perpetuava no poder. Mas o Sacerdote Uhama, que era tido como o braço direito do Chefe Supremo, assume o poder quando este morre. Usurpador, Uhama mostra-se um déspota que diz agir em nome de Manusia, um Ancestral, que segundo a crença do povo, foi aquele que criou os seres humanos. Cada dia mais autoritário, Uhama leva a sociedade Kitaran, até então pacífica a rebelar-se, e uma revolução é iniciada — e como toda revolução, muito sangue é derramado e valores até então tidos como verdadeiros, agora são deixados de lado em nome da causa.

Os personagens do passado, presente e futuro, têm em comum o desejo por dias melhores. Os Pemburu, clã de Tesé, que antigamente foi comandado por Tavo — que levou o povo a rebelar-se — agora vive isolado, e Batuá, pai do jovem Tesé, é o líder dos Pemburu no presente. Como todo adolescente, Tesé não se conforma com a realidade na qual estavam vivendo. Com a escassez de raízes e peixes, agora todos têm que se alimentar com ratazanas e iguanas. Sonha em uma nova terra, onde a fome não será um problema, mas acaba se convencendo de que essa terra não existe. Questiona-se também o porquê não poderem atravessar o limite da Praia da Nuvem e se aventurar pelas montanhas altas, mas perguntar sobre o que tem do lado de lá é quase como um tabu. Ninguém comenta nada, nem sabe de nada. Ou fingi não saber.

Para os Kitaran, o mundo veio à existência depois que os filhos de Céu Pai e Mãe Terra separaram os dois, dando assim vida ao que agora chamamos de Mundo. Uma crença enraizada na mente de todos, menos na do desbravador Wangka. Para ele, todos estavam abandonados e não existia um poder que comandava tudo. Eram frutos do acaso e estavam abandonados à própria sorte. Encarregado de comandar uma equipe para descobrir Rumah — um novo lar —, Wangka aceita comandar a missão mas é cético quanto à existência de uma terra próspera. Um dos momentos mais tocantes do livro, sem dúvidas, foi quando Wangka teve um encontro com a baleia jubarte e seu filhote. A baleia trouxe à luz aquilo que só era escuridão na mente de Wangka. Sua missão também não fora nada fácil, e estava desacreditado quando teve um encontro com o transcendente, na figura da baleia.

Um livro complexo, que aborda questões pelas quais estamos vivendo em nossa realidade, escrito de forma fluida — apesar dos nomes difíceis, porém originais —, é de certa forma uma metáfora. Para nós que estamos sempre em busca de uma “terra ideal”, ou uma sociedade mais justa. Sabemos que não poderemos ter um mundo totalmente igualitário, pois é uma utopia pensar dessa forma. O passado dos Kitaran ensinou às gerações futuras a não depositar total confiança em um líder que se intitule como porta voz da Verdade Suprema. Uhama Senyor alegava que fazia tudo por ordem de Manusia. Desde sacrificar humanos que não concordassem com seu governo, até mandar na propriedade de agricultores e dizer como/com quem/ e o quanto eles deveriam distribuir os alimentos que eles mesmos produziam. Além de ordenar quem deveriam empregar ou deixar de empregar. Tesé foi a ponte para reunificar um povo que estava dividido entre si por causa de um erro cometido no passado, e que agora, com a reaproximação, daria continuidade aos Kitaran. A saga épica termina com a descoberta de um novo lar.




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