Pular para o conteúdo principal

Múltipla Escolha, de Alejandro Zambra

O começo do livro foi bem nada com nada, me senti perdido. Qual o leitor que está acostumado com um livro, que conta diversas histórias sobre os mais variados assuntos, no formato de questões de vestibulares? Por isso o título “Múltipla Escolha”. É um chamado para sair do óbvio e forçar a mente a tirar significado de algo, primeiramente, sem sentido. Algumas páginas adiante já comecei a entrar na ideia do autor e acabei adorando o livro. Frases pequenas, com múltiplas escolhas para substituir os espaços em brancos, faz invocar logo aqueles tempos de escola. Acostumados a obedecer e ter que marcar alguma alternativa, percebermos o quanto fomos treinados e não educados, como o autor enfatiza. Aliás, é um dos assuntos que mais me marcou e proporcionou pensamentos filosóficos sobre o nosso sistema educacional, onde somos treinados a dar uma resposta correta, com medo de que não seja a correta, mesmo que outra alternativa faça mais sentido. 
Por que devemos adivinhar o que o professor/educa…

A Segunda Guerra Mundial, uma breve análise do livro de Antony Beevor


Para quem gosta de História, principalmente aqueles que têm interesse em entender os reais motivos e o que de fato aconteceu na Segunda Guerra Mundial, recomendo o livro de Antony Beevor, lançado ano passado pela editora Record. São mais de 900 páginas de relatos históricos narrado de uma forma objetiva e clara. O autor nos leva a dar um mergulho naquele tempo tão sombrio, e sentimos através das páginas o terror que Hitler e Stalin causaram na Europa.

Antony, diferente de outros historiadores, dá ênfase no destino dos soldados e civis que sofreram durante a Guerra. São relatos pungentes e tão vívidos que faz com que os leitores se sintam na pele daquela gente. As missões do exército alemão; a tomada da Polônia; o crescente embate entre líderes autoritários; a derrota da França; o modo como as autoridades competentes tratavam Hitler como um cara louco; o pacto nazi-soviético quebrado; a guerra entre o Japão e a China, e os conflitos e crueldades envolvidos; a entrada dos EUA para o conflito, após os ataques sofridos nas bases militares de Pearl Harbor; os estupros cometidos pelos soldados japoneses; e etc. Todos esses acontecimentos são narrados de forma clara, como já havia escrito anteriormente, e logo percebermos que A Segunda Guerra Mundial não é apenas um livro, mas um documento extenso muito precioso, cujo informações e valor são infinitos. É uma obra para reler sempre, para não cairmos nas falácias tão usadas nas redes sociais. Afinal, o nazismo era de esquerda ou direita? Por que os historiadores têm sido indiferente à Guerra Sino-Japonesa? Quando se deu início à Segunda Guerra? Beevor, através das quase mil páginas, procura esclarecer essas questões.

“Relatos recentes da Revolução Russa e da violenta destruição de outras guerras civis na Hungria, Finlândia, nos Estados bálticos e na própria Alemanha contribuíram para o processo de polarização política. O ciclo de medo e ódio ameaçava transformar a retórica inflamada em uma profecia autorrealizável, como os acontecimentos na Espanha logo demonstrariam. As alternativas maniqueístas certamente tendem a romper o centrismo democrático baseado em acordos. Nessa nova era coletivista, as soluções violentas soavam como heroísmo supremo para os intelectuais da esquerda e da direita, assim como para os ex-soldados amargurados da Primeira Guerra Mundial. Diante do desastre financeiro, o Estado autoritário subitamente parecia ser a ordem moderna natural em toda a Europa, e uma resposta ao caos das pugnas entre as facções.” (pg. 13)


Um livro ótimo, com toda certeza. Um tesouro para todos os amantes da História. Reconheço que fico devendo uma resenha mais profunda, assim como o livro é, que será escrito em outro dia. Fico devendo essa para os leitores, e quem sabe eu não faça uma série de textos sobre A Segunda Guerra baseados nesse livro? 

Antony Beevor estudou em Winchester e na Academia Militar de Sandhurst. Tornou-se oficial regular do 11º Regimento de Hussardos e deixou o exército depois de cinco anos para se tornar escritor. Publicou quatro romances e seis livros de não-ficção, entre os quais Berlim 1945 e Stalingrado. Foi vencedor dos prêmios Samuel Johnson de Não-Ficção, Wolfson de História e o Hawthornden; The Spanish Civil War; Inside the British Army; Crete - The Battle and the Resistance e Paris After the Liberation, 1944-1949, este último em parceria com a mulher, Artemis Cooper.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Leia o conto "O Gato Preto", de Edgar Allan Poe

Não espero nem peço que acreditem nesta narrativa ao mesmo tempo estranha e despretensiosa que estou a ponto de escrever. Seria realmente doido se esperasse, neste caso em que até mesmo meus sentidos rejeitaram a própria evidência. Todavia, não sou louco e certamente não sonhei o que vou narrar. Mas amanhã morrerei e quero hoje aliviar minha alma. Meu propósito imediato é o de colocar diante do mundo, simplesmente, sucintamente e sem comentários, uma série de eventos nada mais do que domésticos. Através de suas consequências, esses acontecimentos me terrificaram, torturaram e destruíram. Entretanto, não tentarei explicá- los nem justificá-los. Para mim significaram apenas Horror, para muitos parecerão menos terríveis do que góticos ou grotescos. Mais tarde, talvez, algum intelecto surgirá para reduzir minhas fantasmagorias a lugares-comuns – alguma inteligência mais calma, mais lógica, muito menos excitável que a minha; e esta perceberá, nas circunstâncias que descrevo com espanto, na…

O livro sobre nada | Poema de Manoel de Barros

O livro sobre nada

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu que…

Download gratuito de livros: Crime ou um mal necessário?

Há dias atrás, questionei sobre a prática de downloads de livros de graça na internet. Eu mesmo confesso que sou um desses praticantes, e a reação das pessoas foram das mais diversas. Alguns entediam, e mesmo assim afirmava que era contra tal prática; outros, mais exaltados, diziam que isso era crime, e comparava as pessoas que baixavam e baixam livros pela internet como criminosos de alta periculosidade; outros, que era totalmente a favor de tal prática, explicava sua opinião sobre o assunto e depois era "crucificado" por tal afirmação — a de que baixava livros de graça sim, obrigado.

Os argumentos contrários eram contraditórios, pois afirmavam que tal prática afetava justamente aquele autor iniciante que ralava muito para publicar de forma independente, e quando conseguiam, alguém ia lá e disponibilizava gratuitamente seu ebook para download. Sendo que esse argumento é falho e refutável, pois a "demanda" e a real "necessidade" de baixar livros gratuitame…