Pular para o conteúdo principal

A alma do mundo, de Roger Scruton

Para Roger Scruton, um dos filósofos mais importante da atualidade, não podemos explicar o mundo apenas pelas ciências naturais. Em seu mais recente livro publicado pela Editora Record, Scruton argumenta contra essa tendência de querer explicar cientificamente o que não se pode ser explicado cientificamente. O indivíduo, o self, não pode ser analisado pela ciência com o propósito de explica-lo, assim como o mundo, a música, a religião, o sagrado e as relações eu-você. Nos primeiros capítulos a compreensão pode ser um pouco difícil, pois o filósofo contrapõe os argumentos científicos (como a psicologia evolutiva) que afirma que o que fazemos é determinado pelos nossos genes. Mas não tentarei explicar o que é bastante complicado para entender, por isso deixo essa tarefa para o próprio Scruton.
As nossas associações, o nosso ato de sacrificar pela família ou pátria, nossos contratos, relacionamentos e até a nossa crença faz parte de um mundo que não se pode explicar pela ciência. O nosso …

A história do homem e da empresa



Com a ascensão de Hitler ao poder e o antissemitismo se espalhando na Alemanha, a família Stern são obrigados a fugir do seu amado país. Hans Stern, então ainda adolescente, chega ao Brasil com a família em 1939 e se deslumbra com o que vê. Acostumado com o inverno, o jovem judeu se depara com uma cidade tropical, cheia de verde e banhada pelo mar. Sua adaptação à capital brasileira, o Rio de Janeiro, ocorre sem grandes problemas. Como saíram da Alemanha e deixaram a empresa da família e tudo para trás, agora teriam que arrumar algum meio de ganharem dinheiro na nova cidade. Para a mãe e o avô de Hans, a adaptação à nova realidade não estava acontecendo. Os dois não se conformavam em ter de deixar tudo para trás e vir morar em um país totalmente desconhecido com pessoas desconhecidas. Sem falar nos hábitos estranhos dos brasileiros. Para Hans e o pai, era um recomeço e estavam se dando bem na nova cidade. Como havia deixado vários amigos para trás — alguns ainda estavam na Alemanha, outros haviam saído de lá — Hans escrevia cartas contando como era a nova cidade não só para os amigos, mas também para os familiares que havia ficado. E sua forma de ver o Rio de Janeiro encantava a todos, que pediam para escrever mais cartas.

“Primeiramente, algo sobre minha nova terra. Imaginem uma grande baía. Tão grande que todas as frotas do mundo entrariam nela confortavelmente. Esta baía grande é dividida em diversas baías menores e estas, por sua vez, em menores ainda. Tudo isto permeado por grandes montanhas e rochedos, em parte com florestas, em parte completamente descalvados. A cidade maravilhosa do mundo encontra-se entre essas baías e essas montanhas. [...]” (pg. 34)

Hans Stern, ainda jovem.
A admiração de Hans pela cidade maravilhosa do mundo perduraria até os últimos dias da sua vida. Trabalhando na mercearia do tio, e logo depois em uma casa de selos, Hans deixa o primeiro para se dedicar ao segundo. Mas, como se apaixona pela namorada do dono da casa de selos, Hans é demitido. Quando completou 18 anos, o pai, que Hans amava muito, ainda estava trabalhando na Parnaíba. Como não tinha condições para comprar um presente para o filho, ele lhe mandou uma carta com alguns conselhos. O pai aconselha ao filho de que a vida é bela, e cita Goethe: “A vida, seja como for, é bela.” Explica ao filho que não importa o que aconteça, pois a vida sempre continuará sendo bela. A carta foi guardada com muito carinho por Hans. A sua mãe, que não adaptou-se ainda ao Brasil, tinha regulares crises nervosas que se agravaram mais com a ausência do marido. Vendo que a mãe piorava a cada dia, Hans implorava ao pai para que voltasse para o Rio. Depois de muito insistir, o pai voltou e as coisas ficaram calmas.

Depois de trabalhar em uma empresa de exportação de cristais de rocha e de pedras de cor, a Cristab S.A., Hans decide abrir sua própria empresa de exportação. Aprendera na Cristab a amar as pedras raras e percebeu que esse seria um bom negócio. Nascia a H. Stern, a joalheria brasileira que ganharia o mundo. Pai e filho constrói uma marca forte e a consolida no mercado exterior com suas joias exclusivas de pedras brasileiras, uma novidade.

Logo nos primeiros capítulos, Dieguez foca na trajetória de Hans fugindo com a família da Alemanha até a criação da H. Stern, mas lá pela metade do livro, quando o filho Roberto assume a área de criação, o foco fica sendo em como Roberto elevou a H. Stern em joalheria de luxo, e como atraiu as celebridades de Hollywood e personalidades da moda. 


Não só uma biografia, mas H Stern – A história do homem e da empresa é um aprendizado para qualquer um que têm algum empreendimento ou pensa em ter. A maneira como Hans comanda a empresa, como trata os funcionários, a paixão pelo trabalho é uma fonte inspiradora. Nesse livro conhecemos toda a trajetória do homem e da empresa; seus métodos, suas vitórias, seus fracassos, aprendizados, métodos e etc. Conhecemos as entranhas da H. Stern e percebemos a genialidade não só de Hans, mas de seus filhos, que posteriormente conduzem a empresa. Uma edição luxuosa e ilustrada. Não é apenas uma biografia ou um perfil jornalístico, mas também um livro de negócios. Com um texto enxuto e que vai direto ao ponto, deixo aqui minha admiração pela Consuelo Dieguez. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Leia o conto "O Gato Preto", de Edgar Allan Poe

Não espero nem peço que acreditem nesta narrativa ao mesmo tempo estranha e despretensiosa que estou a ponto de escrever. Seria realmente doido se esperasse, neste caso em que até mesmo meus sentidos rejeitaram a própria evidência. Todavia, não sou louco e certamente não sonhei o que vou narrar. Mas amanhã morrerei e quero hoje aliviar minha alma. Meu propósito imediato é o de colocar diante do mundo, simplesmente, sucintamente e sem comentários, uma série de eventos nada mais do que domésticos. Através de suas consequências, esses acontecimentos me terrificaram, torturaram e destruíram. Entretanto, não tentarei explicá- los nem justificá-los. Para mim significaram apenas Horror, para muitos parecerão menos terríveis do que góticos ou grotescos. Mais tarde, talvez, algum intelecto surgirá para reduzir minhas fantasmagorias a lugares-comuns – alguma inteligência mais calma, mais lógica, muito menos excitável que a minha; e esta perceberá, nas circunstâncias que descrevo com espanto, na…

Ostra feliz não faz pérola, de Rubem Alves

Bem, vou começar falando o quanto eu aprendi lendo esse livro. Quando falo livro, acho que estou me referindo a mais um livro qualquer, o que não é o caso de Ostra feliz não faz pérola. Rubem Alves é simplesmente incrível, e seus textos que fazem parte do livro são maravilhosos. Claro que tem alguns ao qual eu não concorde muito, mas sobre isso não tenho nada a acrescentar, porque continua sendo maravilhoso de todo o jeito. Acho que vocês estão aí pensando que estou me referindo muito bem ao livro, e que isso cheire a alguma forma de merchan. Mas não caros leitores, quem teve o prazer de ler Rubem Alves sabe do que estou escrevendo.  Os textos falam sobre sofrimento que produz a beleza, da morte que conduz à vida, do envelhecimento que traz a juventude não vivida, do sagrado que está em todos os lugares. São doses de sabedorias que quero tomar sempre. O Rubem fala muito em suas crônicas de Nietzsche, Bach, Cecília e tantos outros ao qual ele admirava. Ostra feliz não faz pérola é uma gr…

O Menino do Pijama Listrado | Resenha do Livro

24 de Abril

Ano: 2007
Páginas: 192 Idioma: português
Editora: Companhia das Letras

Esse é aquele tipo de livro que dá pra ler em um dia. A leitura é simples e envolvente.
A historia relata a vida de Bruno, que em um certo dia ao chegar em casa vê a empregada da família arrumando todas as suas coisas em malas, logo percebe que não só ele mas toda a família irão se mudar, ele tenta de todos os modos a convencer a mãe a não fazer isso, já que ele adora a casa em que mora na cidade de Berlin.
A trama se passa na Alemanha em plena segunda guerra mundial, seu pai sendo comandante, teve que se mudar com a família por questões de seu trabalho. A nova casa de Bruno não é nada convidativa, ele não se agrada dela e logo percebe que ali ele não terá vizinhos e nem crianças com quem brincar. O que o deixa decepcionado e com mais vontade de ir embora.
Bruno é um garoto de nove anos, e como qualquer outro de sua idade esbanja ingenuidade, e deseja sempre alguém com quem possa brincar. Ele tem uma irmã de…