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As pupilas do senhor Reitor, de Júlio Dinis

As Pupilas do Senhor Reitor [Record, 368 pgs, R$32,90] é um clássico da literatura portuguesa. Como o título sugere, as personagens principais são as pupilas do S. Reitor. Margarida e Clara são irmãs, mas uma é o oposto da outra. Enquanto a mais velha, Guida, é reservada e dada às tristezas e melancolia da vida, a outra é alegre, brincalhona e de uma ingenuidade própria das raparigas (leia-se moças) de virtudes do século XIX. A trama gira em torno do já citado S. Reitor, as suas pupilas, o José das Dornas e seus filhos, Pedro e Daniel. Este último, que deveria ter sido padre, não fosse por sua paixão pela pequena Guida – os dois eram crianças – é o caos que agita toda a história. Mandado para a cidade do Porto, Daniel volta já médico para a aldeia onde nascera e passara a infância e causa agitação na pacata aldeia. Suas ideias modernas chocam o médico octogenário, João Semana, e a princípio há certa disputa entre o velho e conservador; o novo e o progressista. Pedro, irmão mais velho …

Verdade ao amanhecer, o relato do último safári de Hemingway na África


Verdade ao amanhecer mistura ficção e autobiografia. O livro retrata o último safári de Hemingway na África com a sua mulher, a srta. Mary. São mais de quatrocentas páginas que relatam sobre os costumes do povo africano, animais, lugares, sua cultura e religião. Para quem não está acostumado com esse tipo de leitura e nunca leu nada do autor, vai achar o livro chato. Ernest Hemingway é um dos grandes nomes da literatura contemporânea mundial, e sua forma de escrever, detalhada, de um fino humor, mas não deixando de ser profunda, talvez cause no leitor uma dificuldade de entender sobre o que o autor está querendo dizer.

Amante da África, tanto que anseia em nunca mais sair do acampamento que fica ao pé de uma montanha, o personagem — que é o autor — é apaixonado pela esposa branca, a srta. Mary, mas também tem uma namorada africana, Debba, pois esse é um dos costumes daquela tribo. A srta. Mary persegue seu leão para matá-lo, mas só consegue tal feito muitos capítulos depois. Nos envolvemos nessa caçada, e a trama do livro gira em torno da caçada ao leão da srta. Mary, tanto que no início de todos os capítulos, acima da numeração, está a figura do leão. O projeto gráfico está incrível, e a capa é absurdamente elegante. Temos a sensação de estar na África, visualizar todos aqueles animais, avistar os pântanos, clareiras, montanhas, e várias vezes questionei se já não havia visto aquele acampamento em minha vida. Hemingway tem esse dom, e nos transporta para dentro da África e nos leva juntos às caçadas cotidianas, que como líder do acampamento, lhe cabe a tarefa de providenciar a carne para o seu povo.

Para os mais sensíveis, as cenas em que bwana mata os animais, como leopardo, as gazelas tommies, entre outros animais, é uma triste leitura. Não sou vegetariano, mas me compadeci daquelas criaturas tão fortemente que cogitei em nunca mais comer carne, pensamento esse que logo passou. Em uma passagem, já no fim do livro, a srta. Mary indaga à Hemingway:

  “Não é estranho que amemos os animais e quase todo dia tenhamos de matar um para comer a carne?” (p.333)

Ao ler esse questionamento, levei um soco na cara. Mas não irei me estender mais nesse assunto, pois estaria fugindo do objetivo. Hemingway também reflete sobre o ofício da escrita, faz críticas a autores, elogia outros, e dá uma leve alfinetada em seu amigo F. Scott Fitzgerald. É por isso que o livro é tão enriquecedor, pois além de levar-nos para uma viagem pela África, ele ainda nos brinda com pensamentos e reflexões sobre o que é ser escritor.

 “(...)Eu sou um autor de ficção; logo, também sou um mentiroso e invento a partir daquilo que sei e ouvi dizer. Sou um trapaceiro.” (p.137)

E aqui me lembrei de outro livro que estou lendo da Record, do Martim Vasques da Cunha, que desmascara, se assim posso dizer, Carlos Drummond de Andrade, por ser um escritor dissimulado, o que cabe totalmente nessa frase de Hemingway. Mas o caso do escritor americano, ele inventa a partir daquilo que sabe e viveu, e a prova disso é esse Verdade ao amanhecer. Ele também desvenda a complexidade do casamento, e por que não, de como permanecer casado. A srta. Mary por vezes está chateada e o questiona sobre vários assuntos, o acusa de ser mau, e recebe respostas carinhosas e compreensivas.

O momento mais hilário para mim nessa leitura é quando lemos uma correspondência de uma senhora de Iowa lhe fazendo duras críticas sobre o seu livro e, ao acabarem as críticas, pede para o autor escrever uma coisa que preste na vida. A resposta dele? Essa:

 “Pensei: aos diabos com essa cadela idiota de Iowa e suas cartas a pessoas que não conhece, sobre coisas que nada entende, e desejei-lhe a graça de uma próxima e feliz morte, mas antes me lembrei de sua última frase: “Por que antes de morrer o senhor não escreve ALGUMA COISA que valha a pena?” E pensei: você é que pensa, sua cadela ignorante de Iowa, eu já fiz isso e voltarei a fazer muitas outras vezes.” (p.333)



Verdade ao amanhecer é um livro complexo, mas que traz muito conhecimento, assim como muitas tristezas. É um livro que tem muito o que dizer e nos ensinar, não somente em relação à África, mas sobre a vida. Sem falar que é uma fonte inesgotável para os aspirantes a escritores, como esse que vos fala. 

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