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A alma do mundo, de Roger Scruton

Para Roger Scruton, um dos filósofos mais importante da atualidade, não podemos explicar o mundo apenas pelas ciências naturais. Em seu mais recente livro publicado pela Editora Record, Scruton argumenta contra essa tendência de querer explicar cientificamente o que não se pode ser explicado cientificamente. O indivíduo, o self, não pode ser analisado pela ciência com o propósito de explica-lo, assim como o mundo, a música, a religião, o sagrado e as relações eu-você. Nos primeiros capítulos a compreensão pode ser um pouco difícil, pois o filósofo contrapõe os argumentos científicos (como a psicologia evolutiva) que afirma que o que fazemos é determinado pelos nossos genes. Mas não tentarei explicar o que é bastante complicado para entender, por isso deixo essa tarefa para o próprio Scruton.
As nossas associações, o nosso ato de sacrificar pela família ou pátria, nossos contratos, relacionamentos e até a nossa crença faz parte de um mundo que não se pode explicar pela ciência. O nosso …

"Espere a primavera, Bandini", de John Fante


Quando o inverno chega, todos ficam descontentes. E se o inverno vier acompanhado de um frio mortífero e da neve, aí a coisa fica mais difícil. O que nos resta a fazer é esperar a primavera e as melhorias na vida que ela pode nos proporcionar. Não haverá mais neve e frio, o papai poderá trabalhar como pedreiro e ganhar dinheiro para alimentar os filhos, os times de beisebol virão para o Sul treinar. E Arturo Bandini espera a primavera com certa expectativa. O inverno trouxe consigo dias esquisitos para a sua família. O pai, Svevo Bandini, natural da Itália, ainda não se acostumou com a América e pensa em sua amada terra na região de Abruzzo. Arturo odeia ser pobre, ter que estudar no colégio católico, ter pouca comida e pouco dinheiro. O inverno trará dias esquisitos para Arturo e toda a família. É o irmão mais velho de três filhos. O mais novo é Federico, e o do meio é August, que sonha em ser padre. Maria se casou com Svevo muito cedo e vive para a família. É loucamente apaixonada pelo marido, que tem lá sua mania estranha de amar. É devota da Virgem Santíssima e se apega ao rosário todas as noites para rezar pela alma imortal dos filhos e de Svevo.


Sua mãe é uma mulher gorda e também italiana. Odeia o marido da filha, e os dois vivem em pé de guerra. Ao saber que a Donna Toscana viria passar o domingo em sua casa, Svevo saiu para beber e não voltou mais. Odiava aquela mulher, o Svevo odiava a gorda da Donna. A avó dos meninos oferece dinheiro para que eles contem se o pai está bêbado, mas eles resistem e nada falam. Maria sabia que seria quase impossível da sua mãe e seu marido se darem bem, havia coisas que até Deus sabia que não daria certo. Arturo, que puxou o pai, é um menino que gosta de aprontar. Rouba dez centavos da mãe para ir ao cinema, mas depois se arrepende, pois pensa se aquilo o levaria ao inferno ou não. Mata uma galinha, mas depois se arrepende, pensando se tal ato seria um pecado venial ou mortal. Odeia o catecismo e a ideia de ir à missa, mas vive se perguntando se aquilo que fizera era pecado venial ou mortal. Temia ir para o inferno, sabia que não teria passagem direta ao céu. Tudo o que deveria fazer era se comportar para passar pouco tempo queimando no purgatório para garantir um lugar no Paraíso. Seu amor por Rosa Pinelli, ah, Rosa!, é um amor de infância e que já nutria há dois anos. Por ela, rouba até um camafeu de sua mãe para dar de presente a Rosa. Mas Rosa não liga tanto assim para Arturo Bandini, pois sabia que roubava. Com o pai sem voltar para casa há dias, Arturo faz o papel de homem da casa. Maria se fragiliza com toda essa situação — a conta na mercearia para pagar, comida para comprar, a pobreza que os aflige mais severamente no inverno. Svevo não volta para casa e Maria aos poucos surta. Ora está bem, ora fica esquisita.

O menino Arturo vê o mundo de forma complexa e sarcástica, e a narrativa tem esse leve tom de sarcasmo e humor. Esse foi o romance de estreia de John Fante, e é aqui que todos os seus personagens se encontram. Declara que nunca mais leu depois de escrevê-lo, pois não pode suportar a ideia de se deixar expor pela própria obra. O livro de pouco mais de 200 páginas é profundo e demonstra que já na sua estreia no romance, em 1938, se tornaria um clássico assim como Pergunte ao pó, que foi lançado no ano seguinte. É um privilégio ler os clássico e conversar com os mortos, pois é isto que a literatura nos proporciona. No Outono, no Inverno, eu espero a primavera chegar. Trecho de uma canção que tem tudo a ver com o título do livro. 



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