Pular para o conteúdo principal

As pupilas do senhor Reitor, de Júlio Dinis

As Pupilas do Senhor Reitor [Record, 368 pgs, R$32,90] é um clássico da literatura portuguesa. Como o título sugere, as personagens principais são as pupilas do S. Reitor. Margarida e Clara são irmãs, mas uma é o oposto da outra. Enquanto a mais velha, Guida, é reservada e dada às tristezas e melancolia da vida, a outra é alegre, brincalhona e de uma ingenuidade própria das raparigas (leia-se moças) de virtudes do século XIX. A trama gira em torno do já citado S. Reitor, as suas pupilas, o José das Dornas e seus filhos, Pedro e Daniel. Este último, que deveria ter sido padre, não fosse por sua paixão pela pequena Guida – os dois eram crianças – é o caos que agita toda a história. Mandado para a cidade do Porto, Daniel volta já médico para a aldeia onde nascera e passara a infância e causa agitação na pacata aldeia. Suas ideias modernas chocam o médico octogenário, João Semana, e a princípio há certa disputa entre o velho e conservador; o novo e o progressista. Pedro, irmão mais velho …

Rebentar, de Rafael Gallo


Esse livro rebentou comigo (desculpem-me pelo trocadilho infame). Uma narrativa leve e ágil, cheio de tensões e de esperanças. Afinal, uma mãe que perde o filho tem a possibilidade de viver uma vida normal? Nesse livro, Ângela, a mãe de Felipe que está desaparecido há três décadas, vê que o tempo passou e que tudo ao seu redor também mudou. Menos Ângela. Incansável, esperançosa — e, até certo modo, culpada pelo desaparecimento do filho. Cheia de medos, dúvidas e esperanças, Ângela tenta dar um encerramento à sua eterna procura pelo filho que pensava ser um superherói. Instigante, emocionante e original — nunca se viu um romance brasileiro tratar sobre o tema de um filho desaparecido — Rebentar é um drama bem construído.

“Um filho desaparecido é um filho que morre todos os dias. Nem mesmo nas mitologias mais cruéis há tragédia equivalente; essa dor nenhum deus teve de suportar. Cada noite que cai desaba sobre os pais com o peso renovado da notícia: você perdeu sua criança e ela está em algum lugar nessa escuridão afora, desprotegida de seu lar.” (p.26)

Felipe desapareceu por um simples segundo. Eles estavam em uma galeria quando Ângela, que tinha algumas fotos para revelar, pedira ao filho que a esperasse em uma loja de brinquedos. Esse foi o último momento de mãe e filho e que reverbera na mente da mãe que se culpa pelo o que aconteceu. Agora, depois de trinta anos, ela vê a possibilidade de um encerramento da sua busca pelo filho tão amado. É extremamente mais difícil do que ela imaginava. Sua renúncia soaria como uma derrota? Será que ela teria forças para tal ato? E o seu filho? Será que ele a questionaria por tê-lo abandonado e encerrado a sua busca? São essas dúvidas que torna a decisão de Ângela difícil: dar um encerramento a tudo isso ou não? Ora, se o seu filho ainda estivesse vivo — pois nem disso ela tem certeza — ele agora estaria com mais de trinta anos e seria totalmente diferente daquele Felipe de trinta anos atrás.


Ainda estou um pouco "rebentado" pelo o que li. Outro assunto retratado no livro é o tempo — que sempre está presente pelo tique-taque do relógio na cozinha de Ângela e Otávio. O tempo passou para Ângela, o tempo levou o seu filho para longe de si, o tempo rebentou com a sua vida e da sua família, o tempo trouxe alegria e tristeza, o tempo rebenta a nossa vida. Não podemos congelar o tempo só por nossa causa — seja por uma perda, uma morte ou uma doença. O tempo não pára, a vida não pára. Mesmo que tudo seja difícil — como foi para Ângela, seu marido e sua família — o tempo não parou. E junto com o tempo, devemos dá continuidade à nossa vida. Sabe aquele ditado que o tempo é o melhor remédio? Então, é isso mesmo. Mas esse remédio não tem um gosto doce, mas sim amargo. Cada livro que leio da Record, me encanta cada vez mais. Não há o que questionar, o Grupo Editorial Record é o melhor grupo editorial do Brasil. Finalizando, a todos que apreciam uma história profunda e rica em sentimentos e detalhes, leia Rebentar, de Rafael Gallo.

Comentários

  1. Gostei bastante da resenha, e fiquei curiosa pela história!

    beijos,

    http://sweetlikecaramel.blogspot.com.br

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Leia o conto "O Gato Preto", de Edgar Allan Poe

Não espero nem peço que acreditem nesta narrativa ao mesmo tempo estranha e despretensiosa que estou a ponto de escrever. Seria realmente doido se esperasse, neste caso em que até mesmo meus sentidos rejeitaram a própria evidência. Todavia, não sou louco e certamente não sonhei o que vou narrar. Mas amanhã morrerei e quero hoje aliviar minha alma. Meu propósito imediato é o de colocar diante do mundo, simplesmente, sucintamente e sem comentários, uma série de eventos nada mais do que domésticos. Através de suas consequências, esses acontecimentos me terrificaram, torturaram e destruíram. Entretanto, não tentarei explicá- los nem justificá-los. Para mim significaram apenas Horror, para muitos parecerão menos terríveis do que góticos ou grotescos. Mais tarde, talvez, algum intelecto surgirá para reduzir minhas fantasmagorias a lugares-comuns – alguma inteligência mais calma, mais lógica, muito menos excitável que a minha; e esta perceberá, nas circunstâncias que descrevo com espanto, na…

O livro sobre nada | Poema de Manoel de Barros

O livro sobre nada

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu que…

Ostra feliz não faz pérola, de Rubem Alves

Bem, vou começar falando o quanto eu aprendi lendo esse livro. Quando falo livro, acho que estou me referindo a mais um livro qualquer, o que não é o caso de Ostra feliz não faz pérola. Rubem Alves é simplesmente incrível, e seus textos que fazem parte do livro são maravilhosos. Claro que tem alguns ao qual eu não concorde muito, mas sobre isso não tenho nada a acrescentar, porque continua sendo maravilhoso de todo o jeito. Acho que vocês estão aí pensando que estou me referindo muito bem ao livro, e que isso cheire a alguma forma de merchan. Mas não caros leitores, quem teve o prazer de ler Rubem Alves sabe do que estou escrevendo.  Os textos falam sobre sofrimento que produz a beleza, da morte que conduz à vida, do envelhecimento que traz a juventude não vivida, do sagrado que está em todos os lugares. São doses de sabedorias que quero tomar sempre. O Rubem fala muito em suas crônicas de Nietzsche, Bach, Cecília e tantos outros ao qual ele admirava. Ostra feliz não faz pérola é uma gr…