Pular para o conteúdo principal

Múltipla Escolha, de Alejandro Zambra

O começo do livro foi bem nada com nada, me senti perdido. Qual o leitor que está acostumado com um livro, que conta diversas histórias sobre os mais variados assuntos, no formato de questões de vestibulares? Por isso o título “Múltipla Escolha”. É um chamado para sair do óbvio e forçar a mente a tirar significado de algo, primeiramente, sem sentido. Algumas páginas adiante já comecei a entrar na ideia do autor e acabei adorando o livro. Frases pequenas, com múltiplas escolhas para substituir os espaços em brancos, faz invocar logo aqueles tempos de escola. Acostumados a obedecer e ter que marcar alguma alternativa, percebermos o quanto fomos treinados e não educados, como o autor enfatiza. Aliás, é um dos assuntos que mais me marcou e proporcionou pensamentos filosóficos sobre o nosso sistema educacional, onde somos treinados a dar uma resposta correta, com medo de que não seja a correta, mesmo que outra alternativa faça mais sentido. 
Por que devemos adivinhar o que o professor/educa…

"Eu, Robô", de Isaac Asimov


“Eu, Robô” de Isaac Asimov, publicado em 1950, é um clássico da ficção científica. Foi Asimov que criou as Leis da Robótica, assim acabando com o complexo de Frankenstein. Mas o que seria esse complexo? Resumindo, é o medo que os seres humanos nutriam pelas máquinas. Naquela época, a literatura sobre ficção científica detalhava como criaturas feitas pelo homem traíam o seu criador, como no romance de Mary Shelley, em que um cientista suíço, cria um homem artificial. A criatura se volta contra o criador, e mata a esposa e o irmão do cientista. Asimov não gostava disso, e por isso criou as três leis que hoje regem a ficção científica, seja na literatura ou cinema. São elas:
— Primeira Lei: um robô não pode ferir um ser humano ou, através da inação, permitir que um ser humano seja ferido.
— Segunda Lei: um robô deve obedecer às ordens dadas por seres humanos exceto se tais ordens entrarem em conflito com a Primeira Lei.
— Terceira Lei: um robô deve proteger sua própria existência desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou a Segunda Lei.



Os nove contos mostram como essas leis funcionam, e, quando elas entram em conflito. A narração é feita por Susan Calvin, a robôpsicóloga da U.S. Robôs. Um repórter a entrevista e pergunta sobre nove acontecimentos, o que resultam nos nove contos. O primeiro é sobre o primeiro robô criado pela U.S Robôs, quando estes ainda podiam viver entre a sociedade. Um robô babá, que foi criado para proteger e cuidar de crianças. Mas a mãe da menina acha isso um absurdo, e faz de tudo para o robô ser devolvido. Mas a criança já tinha se apegado à máquina, e fica triste. Para tentar animar a filha, o casal leva a criança para ver como funciona a montagem de robôs, até que ela vê uma máquina parecida com Robbie, e corre em sua direção. A menina não vê que um enorme trator desliza cegamente em direção a ela. Mas Robbie agiu rapidamente e salvou a menina: a Primeira Lei entrara em ação.

Os contos seguintes mostram falhas dos robôs em relação às Leis da Robótica. Um robô acha que é superior aos humanos, e adora uma máquina como se fosse seu Mestre, e o autodenomina como o Profeta do Mestre. Outro lê mentes, e mente; outro é aparentemente um humanoide, e assim por diante. Os robôs não ferem os seres humanos, mas em certas situações, acham-se superiores a humanidade e decidem o seu futuro baseados nas Leis da Robótica.

Esse foi o primeiro livro que li de ficção científica, e por isso, achei a leitura um pouco arrastada. Nunca fui bom em física, e todas aquelas definições científicas me deixaram sonolento. Não, não estou dizendo que o livro é ruim. Estou dizendo que sou péssimo em exatas, nunca tirei um dez em física. Mas os contos são muito bons, Asimov escreveu-os de forma atemporal, ainda estamos em 2015 e os fatos citados no livro se passam em 2040 por diante. Apesar de achar a leitura arrastada, a forma como Asimov detalha os acontecimentos, as explicações para cada problema são geniais. Em certos momentos sentia pena das máquinas, sim, isso mesmo. Como uma mente pode ser tão brilhante? Estamos falando de um livro lançado na década de 50! Já existem robôs em nossa realidade, mas será que são regidos pelas Leis da Robótica? Claro que é uma brincadeira, mas o que quero dizer é que “Eu, Robô” é tão atual e fazem os leitores pensar na possibilidade de possuir um dia essas máquinas. Apesar dos pontos que levantei, que tornou para mim a leitura um pouco chatinha, gostei muito do livro. Isaac Asimov é um gênio por criar um universo e máquinas tão complexas que até para ler exige um pouco de esforço. Sem falar que o autor publicou mais de 400 livros, criou a palavra “robótica” e é uma influência para todos os amantes da boa literatura. Não que exista uma literatura ruim, mas vocês me entenderam. 

Comentários

  1. Eu adoro esse livro, Asimov era um gênio que conseguiu prever muita coisa como a Wikipédia e o forno de micro-ondas décadas antes dessas tecnologias surgirem. Só um gênio desse naipe poderia criar leis aparentemente tão perfeitas, feitas para proteger os humanos, e pensar em tantas maneiras de burlá-las sem contradição, é o que acontece nos contos.

    Um detalhe interessante, o filme "Eu, robô" de 2004 - aquele com o Will Smith - é baseado nesse livro, mas não é adaptação de nenhum dos contos deles, uma história nova foi escrita com base nas leis e nas interpretações que podem ser feitas a partir delas, igual Isaac Asimov fez em seu livro. Eu achei um trabalho brilhante e que fez jus ao escritor russo.

    Outro livro que fala dessa complicada interação criador/criatura, ou homem/máquina é A.I. Inteligência Artificial, você conhece? Eu escrevi uma resenha sobre ele no blog Rascunho com Café: http://www.rascunhocomcafe.com/2015/09/ai-inteligencia-artificial-um-conto-de.html

    Gostei muito de seu texto, parabéns!

    Abraços,

    Alessandro Bruno

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Fala, Alessandro! Realmente o Asimov foi um gênio, futuramente eu pretendo reler o livro para poder aproveitar mais, já que eu fiquei um pouco sonolento (o primeiro livro de ficção científica que eu li). O filme com o Will já tinha visto, mas não me lembro dos detalhes. E obrigado pela dica do A.I, vou dá uma pesquisada. Vou dá uma passada lá no blog e conferir a resenha. Abraços!

      Excluir
  2. Olá, Allenylson! Há tempos tenho vontade de ler esse livro. Nunca li nada do Asimov, pretendo iniciar com "Fundação" e logo depois partirei pra esse!

    Eu assisti ao filme de 2004 e acho que foi um dos melhores trabalhos do Will.

    Abraços!
    www.bravuraliterariablog.blogspot.com.br

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. E aí, Felipe! O filme com o Will foi ótimo mesmo, e vou procurar ler mais coisas do Asimov.
      Abraços!

      Excluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Leia o conto "O Gato Preto", de Edgar Allan Poe

Não espero nem peço que acreditem nesta narrativa ao mesmo tempo estranha e despretensiosa que estou a ponto de escrever. Seria realmente doido se esperasse, neste caso em que até mesmo meus sentidos rejeitaram a própria evidência. Todavia, não sou louco e certamente não sonhei o que vou narrar. Mas amanhã morrerei e quero hoje aliviar minha alma. Meu propósito imediato é o de colocar diante do mundo, simplesmente, sucintamente e sem comentários, uma série de eventos nada mais do que domésticos. Através de suas consequências, esses acontecimentos me terrificaram, torturaram e destruíram. Entretanto, não tentarei explicá- los nem justificá-los. Para mim significaram apenas Horror, para muitos parecerão menos terríveis do que góticos ou grotescos. Mais tarde, talvez, algum intelecto surgirá para reduzir minhas fantasmagorias a lugares-comuns – alguma inteligência mais calma, mais lógica, muito menos excitável que a minha; e esta perceberá, nas circunstâncias que descrevo com espanto, na…

O livro sobre nada | Poema de Manoel de Barros

O livro sobre nada

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu que…

Download gratuito de livros: Crime ou um mal necessário?

Há dias atrás, questionei sobre a prática de downloads de livros de graça na internet. Eu mesmo confesso que sou um desses praticantes, e a reação das pessoas foram das mais diversas. Alguns entediam, e mesmo assim afirmava que era contra tal prática; outros, mais exaltados, diziam que isso era crime, e comparava as pessoas que baixavam e baixam livros pela internet como criminosos de alta periculosidade; outros, que era totalmente a favor de tal prática, explicava sua opinião sobre o assunto e depois era "crucificado" por tal afirmação — a de que baixava livros de graça sim, obrigado.

Os argumentos contrários eram contraditórios, pois afirmavam que tal prática afetava justamente aquele autor iniciante que ralava muito para publicar de forma independente, e quando conseguiam, alguém ia lá e disponibilizava gratuitamente seu ebook para download. Sendo que esse argumento é falho e refutável, pois a "demanda" e a real "necessidade" de baixar livros gratuitame…