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A alma do mundo, de Roger Scruton

Para Roger Scruton, um dos filósofos mais importante da atualidade, não podemos explicar o mundo apenas pelas ciências naturais. Em seu mais recente livro publicado pela Editora Record, Scruton argumenta contra essa tendência de querer explicar cientificamente o que não se pode ser explicado cientificamente. O indivíduo, o self, não pode ser analisado pela ciência com o propósito de explica-lo, assim como o mundo, a música, a religião, o sagrado e as relações eu-você. Nos primeiros capítulos a compreensão pode ser um pouco difícil, pois o filósofo contrapõe os argumentos científicos (como a psicologia evolutiva) que afirma que o que fazemos é determinado pelos nossos genes. Mas não tentarei explicar o que é bastante complicado para entender, por isso deixo essa tarefa para o próprio Scruton.
As nossas associações, o nosso ato de sacrificar pela família ou pátria, nossos contratos, relacionamentos e até a nossa crença faz parte de um mundo que não se pode explicar pela ciência. O nosso …

Que fim levou Juliana Klein?, de Marcos Peres

 Um bom livro é aquele que lhe deixa com mais dúvidas do que respostas.

Imagem: O Diario
Que fim levou Juliana Klein? é um romance policial, digamos filosófico. As personagens citam com frequência Nietzsche, Agostinho e Platão. Esse é o segundo livro do autor Marcos Peres, e que já surpreendeu antes mesmo de ser publicado. Assim que começamos a leitura, somos colocados no meio de uma rixa familiar, e só largamos o livro depois que todas as perguntas sejam respondidas, ou não. Pois bem, o delegado Irineu de Freitas, um caipira do interior, da cidade de Maringá, vai a Curitiba ajudar o amigo Gomez, que também é delegado, a descobrir um crime muito estranho. É Irineu que nos conduz pela Curitiba, palco de uma disputa imortal (?). As famílias Koch e Klein são conhecidas não só pelos seus saberes filosóficos, mas também pelo ódio que nutrem um pelo outro. Os Koch lecionam filosofia na PUC; já os Klein lecionam também filosofia, só que na UFPR. Juliana Klein, a nossa personagem desaparecida, é especializada em Nietzsche e acredita na teoria cíclica, que tudo o que aconteceu no passado está acontecendo hoje e acontecerá no futuro. “Esta conversa que estamos tendo, delegado, já aconteceu várias outras vezes”, diz Juliana a Irineu quando ele vai ao casarão dos Klein entrevistar a esposa de um assassino. Casarão esse que é alvo de vários mitos e lendas, desde a sua construção por um luterano, até o primeiro Klein chegar a Curitiba e morar naquela casa famosa do Batel. Derek Klein, pai de Juliana, se enforcou na sala do casarão, assim reforçando a lenda do casarão mal-assombrado. O autor reserva um capítulo para essas lendas e mitos, que é importante para entender os eventos posteriores, que só reforçarão o imaginário popular.

“Sinto em meu sangue. Vejo os fantasmas do passado e sei que o futuro tende a repetir — não é preciso ser um Klein ou um Koch para saber isso. Estudei Nietzsche e aprendi duas coisas. A primeira é que o livre-arbítrio é uma falácia, um argumento covarde dos que não conseguem perceber que o mundo, para o bem e para o mal, está escrito no passado. Nietzsche escreveu em uma parábola: ‘Esta conversa, os detalhes desta conversa, o que somos, o que fazemos, tudo já foi feito. A história é finita e cíclica.” (p. 75)  



Há também uma cronologia dos fatos logo no início, junto com uma genealogia dos Koch e Klein. E essas páginas também tem importância, não façam como eu fiz, pulando elas. Salvador Scaciotto, marido de Juliana Klein e pai de Gabriela Klein, matou a esposa de Franz Koch, Tereza Koch, por um motivo ainda não revelado. Irineu vai prender Saciotto no casarão e lá tem a difícil tarefa de explicar para a garotinha que só está levando o seu pai para fazer uma viagem, que incluía bruxas e vampiros, mentira que Gabi acreditou, pois só era uma criança inocente. Depois da morte de Tereza Koch, umas séries de assassinatos se sucedem, terminando com o sumiço de Juliana Klein. E o protagonista, nosso delegado Irineu de Freitas, se envolve de tal maneira a ponto de se perder, e fazer investigações ilegais. Se em todos os romances policiais, seja com Poirot ou Sherlock Holmes, o caso é solucionado, em Que fim levou Juliana Klein?, as coisas tendem para a 'não-conclusão'. Irineu se envolve com Juliana Klein, tem afeto pela filha, e é jurado por vingança pelo marido traído. Investiga as alunas de Franz Koch ilegalmente, pois pensa que o professor é o mandante dos crimes contra os Klein. Afinal, essa briga teve início lá em Frankfurt e se arrastou para solo Curitibano. Por mais que tente encaixar as peças, ainda fica faltando uma que o tira do foco. Irineu de Freitas é um personagem muito bem construído, com forte personalidade e, digamos assim, mulherengo (dissera Juliana). Deixa que seu envolvimento com Juliana atrapalhe o seu lado profissional, mas, ele é o único que pode desvendar que fim levou Juliana Klein e luta por isso até o fim, mesmo quando é afastado, alvo de um processo administrativo, e tem o seu caso com a esposa de um assassino divulgado pela mídia e etc.  O desfecho dessa história intrigante, que ganha um ar de thriller, é surpreendente e me deixou com várias dúvidas. Sim, um bom livro é aquele que lhe deixa com mais dúvidas do que respostas. A literatura policial brasileira está ganhando força, e nós leitores, agradecemos. Esse foi o primeiro livro do Marcos que li, e sem dúvida alguma, foi uma bela surpresa.

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