Pular para o conteúdo principal

As pupilas do senhor Reitor, de Júlio Dinis

As Pupilas do Senhor Reitor [Record, 368 pgs, R$32,90] é um clássico da literatura portuguesa. Como o título sugere, as personagens principais são as pupilas do S. Reitor. Margarida e Clara são irmãs, mas uma é o oposto da outra. Enquanto a mais velha, Guida, é reservada e dada às tristezas e melancolia da vida, a outra é alegre, brincalhona e de uma ingenuidade própria das raparigas (leia-se moças) de virtudes do século XIX. A trama gira em torno do já citado S. Reitor, as suas pupilas, o José das Dornas e seus filhos, Pedro e Daniel. Este último, que deveria ter sido padre, não fosse por sua paixão pela pequena Guida – os dois eram crianças – é o caos que agita toda a história. Mandado para a cidade do Porto, Daniel volta já médico para a aldeia onde nascera e passara a infância e causa agitação na pacata aldeia. Suas ideias modernas chocam o médico octogenário, João Semana, e a princípio há certa disputa entre o velho e conservador; o novo e o progressista. Pedro, irmão mais velho …

Missão Pré-Sal 2025, romance de estreia de Vivianne Geber

Missão Pré-Sal é o primeiro livro de uma trilogia

Vivianne Geber no lançamento de seu livro.
A trama é empolgante, escrita fluída, ritmo acelerado. Ruppel trabalha para a Marinha do Brasil e é enviado a Londres para um missão: resgatar informações sobre o projeto Pré-Sal 2025. Construir submarinos híbridos levaria o país a entrar para elite militar mundial. Mas alguém está querendo lucrar vendendo essas informações para outros países, a Rússia é um dos suspeitos. O comandante Ruppel se vê no meio de uma articulação criminosa, se envolve com pessoas perigosas e com uma mulher atraente, mas misteriosa. Você fica querendo saber, assim como Ruppel, quem está falando a verdade, quem é o inimigo, e em quem confiar. Será que Victoria está do seu lado? Será que o capitão de mar e guerra, Gerson Húngaro, está dizendo a verdade? Um thriller de espionagem que deixa o leitor quebrando a cabeça e querendo ler mais, até chegar ao desfecho da trama.
 A história se passa em Londres, e é lá que tudo acontece antes da bomba estourar aqui no Brasil. O que está por trás desses mistérios vai muito além do que imaginamos. O casamento de Ruppel está desgastado; sua esposa Carla acha que ele está traindo-a, e por isso viajaram juntos a Londres, a pedido de Húngaro, para tentar salvar o casamento conturbado. Os dois tinha Ricardo, filho de seis anos do casal, criança essa que amava Ruppel. A mãe de Carla odeia o genro, e faz de tudo para pôr um fim no casamento da filha. Ao conhecer Victoria, Ruppel sente uma atração pela jovem mulher. Ela também é casada, com Edgar, mas seu relacionamento também anda aos frangalhos. Os dois lutam contra um possível envolvimento, mas em alguns momentos, acabam cedendo, e logo voltam à realidade fingindo que nada aconteceu. 


Ruppel fica totalmente esgotado pela missão; suas dúvidas são constantes, não sabe em quem confiar. Desconfia de tudo, mas ao mesmo tempo, confia em Victoria. Gosto da mudança da narrativa para outros personagens no mesmo capítulo; não me confundiu em nada nesse aspecto. Traições, mentiras, corrupção, investigação, aparatos tecnológicos dignos de filmes de espionagem, um enredo consistente e uma trama intrigante do início ao fim.
 A história vai ganhando novos personagens, novas dúvidas, e ficamos com um ponto de interrogação em nossa mente. O final é inimaginável, tive que parar a leitura algumas vezes para pensar: "que filha da mãe!". Super recomendo a todos que gostam de uma boa narrativa e de um bom thriller. Vivanne Geber escreve muito bem, e fez uma grande estréia na literatura nacional com Missão Pré-Sal 2025. Ainda estou me recuperando desse desfecho, o que tinha pensado sobre uma personagem aconteceu, mas o resto foi muito imprevisível, me surpreendeu bastante.


Mais informações:


Missão Pré-Sal 2025 - Londres, segunda década do século XXI. Rodolfo Ruppel, oficial da Marinha brasileira, é enviado à capital britânica numa missão secreta, sob o pretexto de participar de evento de uma empresa especializada em defesa naval. Viaja com a esposa, Carla, e pretende aproveitar a oportunidade para tentar reinventar o casamento já desgastado. Pouco lhe é informado acerca da missão, mas sabe que terá de recapturar informações roubadas sobre o ambicioso Projeto Pré-Sal 2025, grande conquista tecnológica da Marinha brasileira: um submarino híbrido, semidiesel, seminuclear – a arma capaz de alçar o país à elite militar mundial –, cujo principal objetivo era a defesa do pré-sal brasileiro. As instruções, criptografadas em Os girassóis, de Vincent Van Gogh, envolvem Ruppel em uma rede de alianças e traições, trama intrincada em que conhece a misteriosa e sedutora engenheira naval Victoria Borges, que o conduzirá a um mundo de prazer e perigo até então desconhecido. Vivianne Geber é militar há 17 anos, prestando assessoria jurídica à Marinha do Brasil. Em Missão pré-sal 2025, a autora utiliza seu conhecimento profissional para trabalhar com grande habilidade questões factuais na envolvente trama de espionagem. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Leia o conto "O Gato Preto", de Edgar Allan Poe

Não espero nem peço que acreditem nesta narrativa ao mesmo tempo estranha e despretensiosa que estou a ponto de escrever. Seria realmente doido se esperasse, neste caso em que até mesmo meus sentidos rejeitaram a própria evidência. Todavia, não sou louco e certamente não sonhei o que vou narrar. Mas amanhã morrerei e quero hoje aliviar minha alma. Meu propósito imediato é o de colocar diante do mundo, simplesmente, sucintamente e sem comentários, uma série de eventos nada mais do que domésticos. Através de suas consequências, esses acontecimentos me terrificaram, torturaram e destruíram. Entretanto, não tentarei explicá- los nem justificá-los. Para mim significaram apenas Horror, para muitos parecerão menos terríveis do que góticos ou grotescos. Mais tarde, talvez, algum intelecto surgirá para reduzir minhas fantasmagorias a lugares-comuns – alguma inteligência mais calma, mais lógica, muito menos excitável que a minha; e esta perceberá, nas circunstâncias que descrevo com espanto, na…

O livro sobre nada | Poema de Manoel de Barros

O livro sobre nada

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu que…

Ostra feliz não faz pérola, de Rubem Alves

Bem, vou começar falando o quanto eu aprendi lendo esse livro. Quando falo livro, acho que estou me referindo a mais um livro qualquer, o que não é o caso de Ostra feliz não faz pérola. Rubem Alves é simplesmente incrível, e seus textos que fazem parte do livro são maravilhosos. Claro que tem alguns ao qual eu não concorde muito, mas sobre isso não tenho nada a acrescentar, porque continua sendo maravilhoso de todo o jeito. Acho que vocês estão aí pensando que estou me referindo muito bem ao livro, e que isso cheire a alguma forma de merchan. Mas não caros leitores, quem teve o prazer de ler Rubem Alves sabe do que estou escrevendo.  Os textos falam sobre sofrimento que produz a beleza, da morte que conduz à vida, do envelhecimento que traz a juventude não vivida, do sagrado que está em todos os lugares. São doses de sabedorias que quero tomar sempre. O Rubem fala muito em suas crônicas de Nietzsche, Bach, Cecília e tantos outros ao qual ele admirava. Ostra feliz não faz pérola é uma gr…