Pular para o conteúdo principal

As pupilas do senhor Reitor, de Júlio Dinis

As Pupilas do Senhor Reitor [Record, 368 pgs, R$32,90] é um clássico da literatura portuguesa. Como o título sugere, as personagens principais são as pupilas do S. Reitor. Margarida e Clara são irmãs, mas uma é o oposto da outra. Enquanto a mais velha, Guida, é reservada e dada às tristezas e melancolia da vida, a outra é alegre, brincalhona e de uma ingenuidade própria das raparigas (leia-se moças) de virtudes do século XIX. A trama gira em torno do já citado S. Reitor, as suas pupilas, o José das Dornas e seus filhos, Pedro e Daniel. Este último, que deveria ter sido padre, não fosse por sua paixão pela pequena Guida – os dois eram crianças – é o caos que agita toda a história. Mandado para a cidade do Porto, Daniel volta já médico para a aldeia onde nascera e passara a infância e causa agitação na pacata aldeia. Suas ideias modernas chocam o médico octogenário, João Semana, e a princípio há certa disputa entre o velho e conservador; o novo e o progressista. Pedro, irmão mais velho …

A batalha espiritual em "Este Mundo Tenebroso", de Frank Peretti

Uma narrativa empolgante, original, sem muito clichê, eletrizante e até mesmo de arrepiar. 

 

Em Este Mundo Tenebroso, a cidade de Ashton está sendo alvo de um grande plano. Forças malignas querem tomar a cidade para si no reino espiritual, e uma sociedade secreta, a Sociedade da Percepção Universal, quer que a calma cidade americana seja mais uma de suas propriedades. Frank Peretti conduz a história de forma muito fluida, sem fazer o leitor se perder na narrativa. Ora, temos aqui duas ações: a física e a espiritual. No plano físico, Hank Busche, um homem de oração, sente que algo está acontecendo com a sua cidade. Por ser uma pedra de tropeço, Alf Brummel, o delegado de Ashton e membro da igreja onde Hank pastoreia, faz de tudo para que o temente homem de Deus seja expulso do cargo e da cidade. Já Marshal Hogan, um jornalista que comprou o Clarim, um pequeno jornal de Ashton, descobre muitas coisas que não eram para serem descobertas. Os dois são alvos de Alexander M. Kaseph, dono da Omni S/A e a mente usada pelo Valente para pôr o plano em ação e tomar de uma vez por todas a cidade de Ashton. No plano espiritual, demônios inferiores estão preparando a cidadezinha para a chegada do príncipe da Babilônia, Baal Rafar. E há Tal, um anjo muito poderoso que vai fazer que todo o plano do Senhor dê certo, e que mais uma vez Baal seja derrotado e mandado de uma vez por todas para o abismo.

No começo do livro, acompanhamos dois homens altos andando pela cidade, no dia de um festival que era muito popular, e que depois sabemos que se trata de dois anjos. Eles sentem a presença de seus inimigos, e estão ali para proteger o homem de Deus. Subindo uma rua íngreme, eles avistam um demônio, e os seguem. O demônio ia em direção à igreja onde Hank estava orando. A criatura negra, de garras, asas, olhos amarelos, e que solta um bafo pela boca, é detido pela oração do pastor. Ele tenta entrar na igreja, mas de lá de dentro sai uma luz muito forte que o impede. Sim, a oração tem poder. E essa mensagem percorre por todo o livro, até o seu último capítulo.


Enquanto uma guerra espiritual está prestes a começar, Hank e Marshall sofrem muito. Hank, por ser um homem de oração, o que significava um grande perigo para os demônios. E Marshall por ser um jornalista competente, que está reunindo informações sobre uma suposta sociedade que quer comprar a cidade para ninguém sabe o quê e que comete vários crimes para que esse plano se concretize. A faculdade estava pronta para ser vendida para a Omni S/A, alguns moradores que se opuseram a colaborar com o pessoal de Kaseph sumiram sem nenhum motivo ou foram assassinados. A professora da filha de Marshall, Juleen Langstrat, está ensinando para os alunos uma ciência psíquica que faz com que a pessoa evolua para um estado de perfeição, fazendo reuniões com autoridades municipais, ensinando-os uma espécie de religião oriental, misticismo e até bruxaria. E Sandy, a filha do jornalista, cai nos ensinamentos de Langstrat. Por causa de seu relacionamento turbulento com o pai, ela foge de casa, conhece um cara na faculdade e esse a inicia nas sessões particulares com Langstrat, que pouco a pouco rouba a sua mente e faz com que ela faça tudo que ela quiser.


Ashton está para ser tomada por demônios, os anjos só podem lutar e sair vitoriosos com uma cobertura de oração muito poderosa, e para isso, Tal e seus soldados celestiais reúnem o Remanescente a fim de orarem pela cidade e pedir ao Senhor que ele não permita que Ashton seja tomada pelo Inimigo. Um fato muito interessante do Peretti, é que ele criou uma hierarquia dos anjos e demônios, como Capitão, General, e os mais inferiores, no caso dos demônios, os seres mais infelizes que estão sempre atrapalhando a vida espiritual das pessoas. Como Engano, um demoniozinho pútrido que faz com que o seu hospedeiro se engane, Violência, Estupro, e etc. E quanto mais lemos, mais ansiamos pelo combate entre Tal e Rafar. Uma narrativa empolgante, original, sem muito clichê, eletrizante e até mesmo de arrepiar. Pois há situações no livro em que as personagens são atacadas pelos demônios, mas como é algo espiritual, eles não sabem o que está acontecendo. E ficamos pensando sobre isso. Sobre uma possível batalha espiritual que esteja acontecendo nesse exato momento. É claro que não devemos acreditar em tudo e dizer que isso realmente acontece só porque lemos o livro e nos sentimos fazendo parte daquilo tudo. Há uma batalha espiritual, só não sabemos como ela se dá. Nem como o Inimigo age, nem quais são os nomes dos Demônios, e muito menos se eles estão querendo tomar a nossa cidade... Fico surpreso pelo fato de Frank Peretti não ser muito conhecido por aqui, o cara escreve muito, e lá fora, tem seu prestígio. Talvez porque se trata de literatura cristã, que apesar de ser uma ficção, ainda é cristã, e por isso muitos desprezem pensando que o autor vai enfiar a religião dele goela a baixo. Que em cada dez palavras, cinco vai ser o nome de Deus. Puro engano. Muito pelo contrário, e esse é um ponto muito positivo. Há algumas alegorias, sim. Mas não é algo gritante. E eu só conheci o livro por causa do Eduardo Spohr, quando estava ouvindo um podcast. E se você gostou de A Batalha do Apocalipse, leia Este Mundo Tenebroso, pois foi ele que inspirou de certa forma a escrita do Spohr. O livro tem uma continuação, Este Mundo Tenebroso II.

Comentários

  1. Arrepiante. Só de ler a resenha a gente já fica aflito, vou querer ler esse livro com certeza.

    Alessandro Bruno
    www.rascunhocomcafe.com/2015/08/as-boas-mulheres-da-china-um-retrato-de.html

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É um ótimo livro, não irá se arrepender. Abraços!

      Excluir
  2. Ótima resenha, vou começar a ler este livro.

    ResponderExcluir
  3. MAravilhora resenha, irei ler o livro.

    ResponderExcluir
  4. já li o livro é muito gratificante e nos enriquece um pouco mais sobre o conhecimento espiritual.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Leia o conto "O Gato Preto", de Edgar Allan Poe

Não espero nem peço que acreditem nesta narrativa ao mesmo tempo estranha e despretensiosa que estou a ponto de escrever. Seria realmente doido se esperasse, neste caso em que até mesmo meus sentidos rejeitaram a própria evidência. Todavia, não sou louco e certamente não sonhei o que vou narrar. Mas amanhã morrerei e quero hoje aliviar minha alma. Meu propósito imediato é o de colocar diante do mundo, simplesmente, sucintamente e sem comentários, uma série de eventos nada mais do que domésticos. Através de suas consequências, esses acontecimentos me terrificaram, torturaram e destruíram. Entretanto, não tentarei explicá- los nem justificá-los. Para mim significaram apenas Horror, para muitos parecerão menos terríveis do que góticos ou grotescos. Mais tarde, talvez, algum intelecto surgirá para reduzir minhas fantasmagorias a lugares-comuns – alguma inteligência mais calma, mais lógica, muito menos excitável que a minha; e esta perceberá, nas circunstâncias que descrevo com espanto, na…

O livro sobre nada | Poema de Manoel de Barros

O livro sobre nada

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu que…

Ostra feliz não faz pérola, de Rubem Alves

Bem, vou começar falando o quanto eu aprendi lendo esse livro. Quando falo livro, acho que estou me referindo a mais um livro qualquer, o que não é o caso de Ostra feliz não faz pérola. Rubem Alves é simplesmente incrível, e seus textos que fazem parte do livro são maravilhosos. Claro que tem alguns ao qual eu não concorde muito, mas sobre isso não tenho nada a acrescentar, porque continua sendo maravilhoso de todo o jeito. Acho que vocês estão aí pensando que estou me referindo muito bem ao livro, e que isso cheire a alguma forma de merchan. Mas não caros leitores, quem teve o prazer de ler Rubem Alves sabe do que estou escrevendo.  Os textos falam sobre sofrimento que produz a beleza, da morte que conduz à vida, do envelhecimento que traz a juventude não vivida, do sagrado que está em todos os lugares. São doses de sabedorias que quero tomar sempre. O Rubem fala muito em suas crônicas de Nietzsche, Bach, Cecília e tantos outros ao qual ele admirava. Ostra feliz não faz pérola é uma gr…