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Múltipla Escolha, de Alejandro Zambra

O começo do livro foi bem nada com nada, me senti perdido. Qual o leitor que está acostumado com um livro, que conta diversas histórias sobre os mais variados assuntos, no formato de questões de vestibulares? Por isso o título “Múltipla Escolha”. É um chamado para sair do óbvio e forçar a mente a tirar significado de algo, primeiramente, sem sentido. Algumas páginas adiante já comecei a entrar na ideia do autor e acabei adorando o livro. Frases pequenas, com múltiplas escolhas para substituir os espaços em brancos, faz invocar logo aqueles tempos de escola. Acostumados a obedecer e ter que marcar alguma alternativa, percebermos o quanto fomos treinados e não educados, como o autor enfatiza. Aliás, é um dos assuntos que mais me marcou e proporcionou pensamentos filosóficos sobre o nosso sistema educacional, onde somos treinados a dar uma resposta correta, com medo de que não seja a correta, mesmo que outra alternativa faça mais sentido. 
Por que devemos adivinhar o que o professor/educa…

O Sol é para todos | Resenha do Livro

O Sol é para todos é um livro que todos deveriam ler. Narrado por uma menina, entre seus seis aos oito anos de idade, Scout nos mostra o mundo onde ela vive através de suas reflexões e pontos de vistas. Na primeira parte do livro somos apresentados à família Finch. Atticus, pai de Scout; Jem, irmão mais velho de Scout, e Calpúrnia, a empregada dos Finch. Scout e Jem tentam descobrir como é Boo Radley, pois nunca vira ele na vizinhança e os boatos eram grandes e eles queriam ver com os próprios olhos quem era o vizinho que vivia trancado em casa por todos aqueles anos. Eles conhecem o menino Dill, um ano mais velho que Scout e os três decidem tirar Boo Radley de dentro da sua segura casa. Várias missões são empreendidas, e como crianças, eles não desistem na primeira derrota. Fazem de tudo para ver Boo, mas sem sucesso. Também conhecemos a pequena cidade de Maycomb. Com famílias brancas e cristãs, todos tradicionais. E há também os negros, os pretos como todos se referem. Nessa primeira parte, os negros não são tão presentes na história de Harper Lee. Até que Atticus pega um caso envolvendo um. O pai de Scout terá que defender Tom Hobinson de uma acusação muito grave: a de ter estuprado uma branca. Scout não entende o porquê de o pai defender um negro, pois ela é criança e foi nascida em uma família de "berço". O único negro que ela conhecia e que amava era Calpúrnia. Ela e Jem começam a escutar piadinhas sobre o pai ser um "adorador de pretos", o que deixa Scout furiosa. Ela não sabe o que isso significa de fato, mas compreende que não é um elogio.

Scout é uma menina de temperamento forte, uma menina nada delicada. Usa calça e macacão, o que deixa a tia Alexandra indignada, pois quer que a sobrinha seja uma dama. O romance se passa na década de 30, em uma sociedade americana ainda racista. Em Maycomb, os negros não são tratados como gente. Mas sim como "inferiores". A cidade não gostou nada de um branco defender um negro, estaria traindo os seus iguais. Mas Atticus não pensa assim, e é isso o que ele passa para os filhos, numa tentativa deles não pegarem essa doença que os adultos tinham. Doença essa que até hoje persiste, infelizmente. Conforme o dia do julgamento vai chegando, a história vai se aprofundando e nos envolvendo de tal maneira, que, parece que estamos lá, em Maycomb, ao lado de Scout, vendo tudo. Harper Lee nos arrebata para dentro do livro, nos expõem à dura realidade da época, e à injustiça que os negros sofriam. Eles tinham o seu próprio bairro, separado dos brancos. Só serviam para fazer o trabalho duro. Eram vistos como animais sem modos, como bichos selvagens que ameaçavam a civilidade.

O momento mais tenso no livro é sem dúvidas, o dia do julgamento de Tom Robinson. Scout, Dill e Jem vão para o tribunal escondidos, e se sentam com os negros e ficam lá, vendo tudo o que aconteceu no tribunal. Tudo isso através dos olhos de uma garota de oito anos de idade. Suponho que a autora pensou em dar uma narrativa mais inocente, sem maldades. Afinal, uma criança ainda não sofreu as mudanças que sofremos, e elas percebem coisas e sentem coisas que não estamos mais aptos a sentir. Scout é sensível, apesar de seu gênio forte; ela nos leva a uma profunda reflexão sobre a sociedade de 1930 e a sociedade de hoje. Será que as coisas mudaram? Será que nos curamos dessa doença chamada racismo? E em particular, uma crítica sutil me chamou muita atenção. A professora de Scout detestava Hitler porque ele perseguia os judeus e os prendia, Hitler se achava superior. E a professora, em uma conversa com uma senhora depois do julgamento de Tom, comenta com alguém que eles precisam dar um jeito de afastar os negros. É interessante, pois ao odiar o que Hitler fazia, ela também odiava a si mesma, mas dava uma desculpa para isso. Entre ela e Hitler não havia nenhuma diferença. E conheçamos pessoas assim. Atticus Finch é uma referência para todos que leram o livro, com seu caráter correto, sempre justo. Pai de duas crianças, que faz de tudo para passar o que é bom aos filhos e os educam da melhor maneira possível. Uma figura calma, mas de pulso forte. Seus diálogos com Scout é uma reflexão para nós.

“Ainda que tenhamos perdido antes mesmo de começar, não significa que não devamos lutar.”
(p. 102)

“A única coisa que não se deve curvar ao julgamento da maioria é a consciência de uma pessoa.” (p. 127)

Para concluir, o livro é muito lindo. Essa edição da Jose Olympio é incrível, o design, a capa, a tradução e revisão, tudo muito bem produzido. Um clássico atemporal, que nunca vai deixar de ter a sua importância. A escrita é leve e ágil, o que facilita a leitura para os mais jovens. Assim como nos EUA, O Sol é para todos deveria ser leitura obrigatória em todas as escolas. Só assim não teríamos tanto preconceito por causa da cor da pele. 


Mais Informações:

Título: O Sol é para todos
Autor: Harper Lee
Páginas: 364
Editora: José Olympio
Avaliação: 
Sinopse: Um livro emblemático sobre racismo e injustiça: a história de um advogado que defende um homem negro acusado de estuprar uma mulher branca nos Estados Unidos dos anos 1930 e enfrenta represálias da comunidade racista. O livro é narrado pela sensível Scout, filha do advogado. Uma história atemporal sobre tolerância, perda da inocência e conceito de justiça.

Comentários

  1. Nossa o livro me parece ser tenso e ao mesmo tempo muito bonito, eu já tinha escutado falar mais não tinha lido nenhuma resenha, fiquei ainda mais interessada agora!

    http://www.vocedebemcomaleitura.blogspot.com.br

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  2. Oi, tudo bem?
    Eu adoro a capa desse livro. Vejo todo mundo fazendo resenhas excelente sobre a obra *-*. EU TENHO QUE COMPRAR ESSE LIVRO *-*

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  3. Super apoiado! Na verdade temos vários livros que deveriam ser leitura obrigatória nas escolas né? E realmente este livro é lindo, foi a primeira resenha que li dele, mas já estava com muita vontade de lê-lo, vou comprar assim que sobrar um dinheirinho ;)

    xoxo
    http://www.amigadaleitora.com/

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  4. Livros com crianças sempre me emocionam e acho que com esse não será diferente
    Temas como esse tbm acho que deveria ser obrigatória a leitura em toda escola
    Adorei sua resenha
    http://malucaspor-romances.blogspot.com.br/

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  5. Olá!
    As crianças sempre trazem coisas interessantes para nós adultos. Nos faz ver com outros olhos, são mais inocentes. Eu adorei a sua resenha.
    Não conhecia o livor, mas espero poder lê-lo em breve.
    Beijinhos!
    http://eraumavezolivro.blogspot.com.br/

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  6. Nossa, me encantei com a personalidade e a força de vontade de Scout em ajudar e ver o vizinho! Fiquei com vontade de ler e de me impressionar com o que ela pode nos ensinar!

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