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Como me tornei um leitor

A leitura é um prazer quase de outro mundo. Quando descobri o mundo dos livros, já muito tarde, eu estava prestes a ingressar no ensino médio. Lembro-me de antes disso ler alguns livros, mas ainda não era fascinado pela leitura. Ao tentar buscar onde esse desejo apareceu pela primeira vez, minha memória falha. Algumas cenas do Capitão Gancho vêm em minha mente, mas é algo totalmente desconexo. O que lembro, e claramente bem, é do livro Transilvânia, um livro que li todo e que me transportou, magicamente, para outro mundo — o da história contada pela autora, que é brasileira. Não o quis devolver para a biblioteca da escola, mas fui obrigado. Foi o primeiro contato com a literatura que eu tive, e a primeira vez que me senti completamente arrebatado para outro mundo.  via GIPHY
Como meus pais não incentivavam a leitura em casa, passou-se um longo tempo até que eu retornasse para o fantástico mundo dos livros. Dessa vez, Harry Potter. Foi aí que me tornei um leitor frenético, e como meus pa…

O livro sobre nada | Poema de Manoel de Barros


O livro sobre nada

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu queria ser lido pelas pedras.
As palavras me escondem sem cuidado.
Aonde eu não estou as palavras me acham.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
Por pudor sou impuro.
O branco me corrompe.
Não gosto de palavra acostumada.
A minha diferença é sempre menos.
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
Não preciso do fim para chegar.
Do lugar onde estou já fui embora.

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