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Mostrando postagens com o rótulo literatura nacional

A hipótese humana, de Alberto Mussa

Um romance policial de assunto histórico, segundo o próprio escritor. Rio de Janeiro, século XIX. Um crime não solucionado, e um desfecho um pouco óbvio. Em A Hipótese Humana, o quarto livro do compêndio mítico sobre os séculos da história do Rio. De fato, mítico. Não li os três livros anteriores, mas neste o mito está bem presente. Assim como as crenças e rituais místicos daquela época. Domitila, filha do coronel Francisco Eugênio, é encontrada morta em seu quarto. Mas sabemos que Tito Gualberto lá esteve antes do assassinato (?) da sua prima, e amante. O coronel escuta barulhos vindos do quarto provisório da filha, situado no térreo ao lado da biblioteca, e adentra-o tarde demais, pois só vê um vulto além da janela e dispara contra quem quer que seja. O detetive, ou investigador, como você queira chamar, é o próprio Tito, amante da vítima. Suspeita primeiramente do marido de Domitila, Zé Higino. Mas tudo parece muito confuso, e o caso mostra ser bem mais complexo do que se imag...

Imaginário, de Gabriel Cianeto

Pessoas somem misteriosamente de um povoado e isso causa espanto para todos que ali moram. O que teria acontecido? Quem levou essas pessoas? É a partir daí que a história de Imaginário ganha vida. Metamorfo, Aradia, Watermade e Whisper’eaht, que possuem poderes, dons mágicos, partem em busca de seus parentes, amigos ou apenas conhecidos numa viagem incerta e cheia de surpresas. Já conhecemos muitas histórias parecidas e essa, para mim, seria apenas mais uma história fantástica. O mais do mesmo. Mas a história perde o foco, segue por rumos inconsistentes e tem diálogos superficiais. Não é uma aventura com muita ação, magia, trolls, dragões. Mas há fadas, poderes sobrenaturais e uma fonte que, supostamente, é a causadora de todos esses sumiços. A leitura se torna maçante ao longo das páginas, os erros ortográficos (culpa da editora, acredito) deixam o leitor inquieto e as personagens não são bem desenvolvidas ao ponto do leitor saber quando Metamorfo está falando, suas caracterís...

Investigação Olímpica, de Fernando Perdigão

Para solucionar uma série de crimes na Cidade Olímpica, o detetive Andrade, de um humor inteligente e ácido, com a ajuda de sua assistente, a inspetora Lurdes, seguirá as pistas deixadas pelo criminoso e se envolverá nas mais engraçadas situações. Uma leitura divertida, que abandona o politicamente correto – e por isso, talvez, alguns leitores se chocarão com esse detetive inteligente e engraçado. Andrade foi escolhido pelo secretário do governo para ser a autoridade policial olímpica, o que deixa o detetive feliz pelo reconhecimento de seu trabalho. Mas ao chegar ao seu novo local de trabalho, a Cidade Olímpica, percebe que ali a lei não tem muita importância. E como homem da lei, fará o possível – e até o impossível – para que a lei prevaleça. Lida com pessoas orgulhosas, que desejam mais e mais o poder e que não hesitarão para que o Brasil alcance o recorde de medalhas – e isso inclui envenenar os principais adversários dos atletas brasileiros.  E é esse caso que o detetiv...

O perigo de sermos totalitários

O quão totalitário somos? A resposta você poderá encontrar lendo o primeiro livro de Francisco Razzo, filósofo e palestrante. Com uma linguagem clara e bastante acessível, Razzo nos conduz em uma profunda reflexão sobre a imaginação totalitária. Como afirma mais de uma vez, o objetivo do livro não é falar sobre os regimes totalitários históricos, mas sim identificar onde começa o totalitarismo – dentro da nossa mente. Antes de se transformar em um regime político, o totalitarismo brota através da imaginação. Existem pessoas mais inclinadas a ceder a essa imaginação do que outras, uma pequena minoria, mas que pode fazer – e fez – grandes estragos. O fato é que todo o ser humano têm essa tendência, essa inclinação para ser totalitário. E o que é preciso fazer para bloquear tais pensamentos e não levar a cabo o que imaginamos? Ora, desconfiar das nossas boas intenções. Quando confiamos plenamente nos nossos ideais, e que não passa pela nossa cabeça de que possamos estar minimamente e...

"Até você saber quem é", de Diogo Rosas G.

Essa é a história de Daniel Hauptmann, um jovem escritor curitibano talentoso. Daniel odeia Curitiba, mas a cidade não deixa que o jovem se liberte de sua prisão. Sente que a cidade do futuro rouba suas energias, seus sonhos, sua vida. Roberto é o guia dessa brilhante e sombria história, melhor amigo de Daniel. Conheceram-se nos tempos de faculdade e nunca mais se separaram. Uma amizade bonita, verdadeira e com um final trágico. Com uma narrativa não linear, os capítulos alternam-se entre o presente – narrado em terceira pessoa – e o passado, em primeira pessoa. Na Curitiba do final dos anos 80 ao início dos 90, Roberto revive suas memórias ao lado do melhor amigo. O mistério que Roberto anuncia nas primeiras frases do livro deixa o leitor curioso para saber quem é esse tal de  Daniel. Sei que muitos chegarão às páginas deste livro buscando entender os homicídios cometidos por seu personagem principal, e isso não me surpreende. Sabemos que o personagem principal – Da...

A morte de um autor e a busca pelo sentido da vida

Essa história daria um livro: você vai à delegacia e descobre, após ter uma briga com funcionários de um restaurante, que está morto. Foi exatamente isso o que aconteceu com o J. P. Cuenca. Decidiu transformar essa morte em um livro e filme, e o resultado é a história em busca de um sentido existencial, onde a morte é a principal protagonista. Atrás da mulher que havia encontrado o corpo com o seu nome e assinado o atestado de óbito, Cuenca entra em uma investigação para descobrir quem é essa mulher. E nessa busca, ele descreve um Rio de Janeiro como nunca pensávamos, denunciando suas mazelas e injustiças, a ambição de políticos e empreiteiras e a futilidade de uma classe artística e jornalística, que tentam dar às suas vidas um real sentido de felicidade, todas elas superficiais.  Dar sentido à vida é um dos maiores anseios do Cuenca-personagem-autor nessa ficção autobiográfica, que mistura a realidade com a ficção e a loucura. Sabemos que o nosso sistema é movido à dinheir...

Belo, trágico, chocante e real, "Os abraços perdidos" é um romance curto mas intenso

Pedro teve um pai que deixou marcas profundas em sua alma. A relação de pai e filho nunca foi normal para ele. Antônio Carlos era um homem bruto, egoísta e sem responsabilidade alguma. Tratava o filho como se fosse um colega de bar. Bar. O pai de Pedro bebia muito e a cada dia que se passava, aprofundava-se mais e mais no álcool. Mais um adjetivo negativo para Antônio Carlos: bêbado. Os capítulos são alternados em primeira e terceira pessoa, um relembrando o passado e o outro narrando o presente. A leitura é rápida e prazerosa, faze-nos sentir um sentimento de ira contra o pai sem noção e de compaixão pelo filho traumatizado. Perguntamo-nos: que pai é esse? Pedro nunca teve o amor do pai, e Antônio Carlos nunca teve o amor do filho. Pensou no quanto mudou nesses anos todos. Era outro. Já havia sido vários outros. Uma vez ingênuo demais, outra vez inconsequente demais, medroso demais, apaixonado demais, iludido demais, bicho-grilo demais. Por vezes, tentou se autocorrigir, mas nã...

Arco de virar réu

A história é dividida em quatro partes e em cada delas o protagonista avança em direção à loucura. Na primeira, com a separação dos pais, o irmão do narrador-personagem entra em seu próprio mundo e não vive mais no mundo real. O primeiro passo para a loucura de J. estava sendo dado ali mesmo, quando o seu irmão criava histórias de guerras e ele meio que se envolve com tudo aquilo. Na segunda e na terceira partes vemos que o protagonista já não está lúcido, o que deixa o leitor sem saber o que realmente está acontecendo. Os delírios – seriam delírios? – envolve o leitor em uma história que aborda a loucura e a normalidade, a vida e a morte. Seríamos todos loucos? O envolvimento de J. com a cultura indígena só deixa a história mais, digamos assim, sinistra. Canibalismo, ocultação de cadáveres, sonhos em florestas... definitivamente o narrador enlouqueceu. O livro é curto, mas intenso. Não sei bem colocar em palavras, porque quando se trata de loucura o que poderíamos escreve...

Os invernos da ilha

O que esperar de uma ilha isolada no meio do Pacífico? Para o Dr. Florian, a redenção. Após perder a esposa, ele sente culpa e assim parte para a Ilha de Sant’Anna Afuera para se tornar monge – ao menos era essa a sua intenção. Mas a ilha lhe traz mais dúvidas que certezas e, ao conhecer o professor Rousseau, é envolvido em uma aventura iminente que trará surpresas e tragédias. Florian, que mais parece um canalha do que um homem com um chamado para Algo maior, é aquele personagem que você nem ama, nem odeia.  Junto com o professor Rousseau – ateu, egoísta e não menos complexo – e a bela Cecília, uma mulher que desperta nos homens aquele sentimento de deslumbramento, formam um trio – triângulo amoroso, se assim posso dizer – que nos conduz por uma aventura empolgante, com direito à caça ao tesouro e acontecimentos dignos de um filme. Diria que a ilha também é uma protagonista, pois ela está lá, com o céu nublado e as chuvas grossas típicas do inverno, além do mar cor de chumb...

O Evangelho segundo a Filosofia

Aurélio Schommer O Evangelho é poder, disso todos os cristãos têm certeza. Mas há quem duvide, sempre há. Para alguns, não passa de história da carochinha. Para outros, um livro ultrapassado que precisa se atualizar. Mas para os cristãos, é a Palavra do Deus imutável. Aquele que nunca muda, sempre será o mesmo. E o que a filosofia pensa sobre o Evangelho e a pessoa de Jesus? Aurélio Schommer nos traz essa resposta, e que pode incomodar muita gente. Principalmente os cristãos.  Dividido em dez capítulos, o livro é surpreendente. Todos sabem que o Ocidente é o que é hoje por influência do cristianismo, que surgiu com o Verbo que se fez carne — uma nova aliança com o Seu povo. Sua moral um tanto rígida construiu nações livres, com leis justas. O Evangelho também influenciou filósofos da antiguidade, para o bem e para o mal. E daí surge variantes do cristianismo, que pegam partes que interessam do Evangelho e criam suas próprias religiões — ou seitas — como o marcionismo, de Mar...

Nascemos para morrer

Viver. Matéria difícil na escola da vida. O que estamos fazendo aqui? Qual a razão disso tudo? Por que sofro? Afinal, qual é o meu problema? São esses um dos assuntos abordados por Fernando Sabino em seu livro O Encontro Marcad o. Eduardo Marciano é o protagonista desse romance existencialista/filosófico, até certo ponto niilista. Mas a narrativa não é niilista do começo ao fim, há sempre a figura do Divino nas dúvidas de Eduardo quanto à existência de Deus. Será que ele acredita em Deus? Durante sua jornada, que começa cheia de vida e esperança e aos poucos vai tornando-se solitária, vazia e mórbida, o protagonista só vai saber se Deus existe nas últimas páginas. O que me levou a considerar O Encontro Marcado como o melhor livro nacional que já li, foi exatamente esses temas citados logo no início desse texto. É difícil ler um romance pessimista, digamos assim, mas que não é pessimista. É um paradoxo que quem leu entenderá. Eduardo, que queria ser escritor, toma rumos ...

A Poeira da Glória, de Martim Vasques da Cunha

O livrou do qual irei escrever um pouco é, digamos assim, difícil de escrever sobre. Por quê? A Poeira da Glória é um gigante de mais de seiscentas páginas em que o autor, Martim Vasques da Cunha, analisa nossa literatura de forma crítica. São vários ensaios reunidos e que deu como resultado uma fonte de pesquisa para todos aqueles que se interessam pela literatura brasileira. Mas, o livro não é qualquer livro que tenta explicar e analisar os autores do nosso cânone literário. O autor vai além, e toca na ferida de muita gente. Desmascara, posso dizer assim, a intenção de um Jorge Amado, Sérgio Buarque de Holanda, Graciliano Ramos, entre outros. É um daqueles livros que você não se dá conta do que está lendo até parar um pouco, tomar um fôlego, e retornar à leitura com mais calma e atenção. Pedi esse livro por causa dos excelentes elogios que o autor recebeu de escritores, filósofos, professores e pensadores que sigo nas redes sociais. Estava querendo ler o tal livro que o Francisc...