"Kingmaker - Uma Jornada no Inverno", de Toby Clements

A justiça já não vale a vela que é acesa para que ela seja cumprida.


Toby Clements foi incrível nesse seu primeiro romance histórico. O primeiro livro de uma série chamada “Kingmaker” – algo como fabricantes de reis, ou fazedores de reis – faz o leitor ler freneticamente um capítulo atrás do outro. [Pode conter spoilers] Os personagens principais, Thomas e Katherine, ambos pertencentes ao Priorado de St. Mary, Haverhurst, no condado de Lincoln, veem suas vidas, antes voltadas para o serviço religioso, tomarem um rumo desconhecido. Tudo aconteceu depois que o deão pediu para Thomas ir buscar uma raposa em uma armadilha que um dos irmãos leigos armou do lado de fora do priorado. O irmão obedece ao padre e sai em busca da raposa – os detalhes são narrados minuciosamente, o que torna aquela pequena missão de Thomas em um grande sofrimento. Da outra parte do priorado – que é dividido em duas partes, uma para os cônegos, e a outra para as irmãs – Katherine está no pátio fazendo seu serviço diário que se resume em recolher os dejetos da prioresa, quando a irmã Alice decide acompanh-la. Ela abre o portão do priorado e as duas andam em direção ao rio para despejar o conteúdo do balde no rio. As estradas naquele tempo eram perigosas, devido à Guerra dos Cem Anos – que durara 116 anos – que deixou a Inglaterra devastada. Katherine escuta cavalos na estrada, mais de dois. “Ela faz sinal para Alice e as duas seguram as saias e correm. Ela ouve um dos homens gritar.” Elas foram vistas e ficam desesperadas e correm a toda brida em direção ao priorado. Um cavalo as alcança e bloqueia o caminho de volta ao priorado, quando Katherine pega seu balde e com toda força joga no cavaleiro e o acerta. “Ele voa para trás, por cima dos flancos do animal, as mãos no rosto.” É aí que a trama se inicia, pois a partir deste episódio, o destino de Thomas e Katherine fica sem rumo. Ele vê o que está acontecendo com as irmãs quando outro cavalo se aproxima, e joga algo que bate na cabeça de um cavaleiro que cai no chão. Os outros dois cavaleiros juram de morte os três, a irmã Alice, Katherine e Thomas. Os três conseguem entrar no priorado e fecha o portão dos pedintes. E então eles escutam o homem falar do outro lado do portão: “...eu vou encontrá-los. Encontrarei você primeiro, irmão monge, e quando eu o fizer, deixarei meu homem Morrant aqui cuidar da sua morte. Então, irei atrás de você, irmã freira, você e sua chorosa.” Quem faz essas ameaças, e os homens que Katherine e Thomas derrubaram, são os homens de Giles Riven. Ele volta ao priorado e quer matar Thomas, mas os dois decidem lutar – e Thomas consegue um milagre, quase mata Giles. Do outro lado do priorado, Katherine enfrenta várias situações humilhantes, de punições, e comete um ato terrível e decide fugir. Thomas foge e vai em direção ao rio, em direção ao barco que está na margem do rio. Ele tenta desvirar o barco, mas é muito pesado. O gigante que estava com Giles Riven vem atrás dele e o agarra, e quando está quase cegando Thomas, Katherine bate no gigante que cai desacordado. Os dois agora viram o barco e sai navegando para longe do priorado – suas vidas agora se encontraram, e os dois só tem um ao outro.


A história de Thomas e Katherine, que evolui em uma espécie de romance, é cheia de sangue, perdas, guerras e mentiras. Mentem, pois o que fizeram no priorado fora muito grave – um pecado. Katherine se disfarça de homem para não ser reconhecida, Thomas raspa a cabeça para também não ser reconhecido. Os dois passam por situações críticas e tem momentos que quase são descobertos. Uma trama bem costurada, escrita leve, detalhista, a narrativa flui facilmente, os personagens são cativantes. Todos que aparecem nesse primeiro livro são autênticos e originais – uns causam apatia, outros empatia até demais. Somos envolvidos em seus dilemas, em suas perdas. A guerra é algo cruel e isso é explícito no livro – o sangue brilha entre as pedras do calçamento, oleoso e escorregadio, viscoso feito catarro; há um braço solitário nas pedras do calçamento, perfeitamente decepado pelo cotovelo. E vemos que Thomas e Katherine têm dons para os quais não serviriam se estivessem no priorado. Para um cônego, que passou a vida desenhando letras em saltérios, ele é um ótimo arqueiro e guerreiro. Katherine tem o dom de fazer milagres com as mãos, e vemos isso na parte em que ela faz uma operação de fístula sem nunca antes ter feito algo parecido, e se sai muito bem. A narração dessa operação me deu ânsia e dores.

É o sentimento de vingança que faz Thomas e Katherine prosseguir. A fé já não faz parte dos pensamentos de Katherine – ela não acredita mais na vontade de Deus. Thomas ainda tem esperança de um dia retornar ao priorado – Katherine quer se ver longe de um. Personagens com pensamentos divergentes, mas unidos pelo destino, e pelo amor. Em todo esse cenário de guerra será possível existir o amor? Toby Clements me deixou empolgado do começo ao fim, conquistou-me com Katherine e Thomas, pessoas comuns que sofrem pela ambição de poder dos nobres, e que são os mais afetados nos campos de batalha. Não tenho dúvidas de que esse livro se tornou um dos meus favoritos no gênero romance histórico, apesar de ter só lido um livro do Bernard Cornwell, que é um mestre em descrever batalhas, considerei Toby um pouco acima de Cornwell até o momento. “Uma Jornada no Inverno” é para todos que se fascinam com aqueles períodos tão sombrios da nossa história. Leitura obrigatória.

Guerra das Rosas

A Guerra das Duas Rosas, ou simplesmente Guerra das Rosas, nasceu de uma longa disputa entre duas dinastias – os Lancaster, que detinham a coroa real e um brasão com uma rosa vermelha; e os York, aspirantes ao poder, que traziam consigo uma rosa branca – pelo trono inglês. As duas famílias adversárias eram descendentes dos Plantageneta. Estes conflitos duraram pelo menos trinta anos, desdobrando-se em lutas isoladas, especialmente em 1455 e em 1485, estendendo-se ao longo dos governos de Henrique VI, Eduardo IV e Ricardo III.

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